Publicada em 28/12/2017, às 12:35

Odair mantém essência como técnico e quer Inter "respeitado como sempre foi"

Em entrevista ao GloboEsporte.com, treinador efetivado pelo Colorado para 2018 revela conselhos de Carille e discorre sobre principal chance de sua carreira

Odair almeja manter essência para fazer se Inter respeitado como sempre foi em 2018 (Foto: Divulgação)

Odair Hellmann desfruta de sua semana derradeira de férias em Balneário Camboriú (SC) com um inseparável sentimento de ansiedade exponencial, que cresce dia após dia, para que o tempo passe o mais rápido possível até o dia 2 de janeiro. Ou melhor: até a grande chance de uma vida repleta de obstáculos, sacrifícios e, em especial, superação para contornar cada percalço até ser efetivado como técnico do Inter em 2018. A partir da virada do ano, Papito, como é chamado por todos no clube, assume de vez os encargos como comandante do Colorado em seu retorno à elite nacional.

E o agora ex-auxiliar abraça todas as responsabilidades inerentes ao posto com duas missões. Uma singela, e outra, grandiosa: manter a "essência" de seu jeito de ser no dia a dia de trabalho e construir um time respeitado Brasil afora para honrar a história colorada em uma temporada emblemática nos 108 anos do clube.

O comandante colorado reservou 30 minutos de seus últimos dias de férias para atender à reportagem do GloboEsporte.com. Hellmann expôs suas ideias embrionárias para a equipe e traçou planos para o clube. E logo desandou a revisitar dias anteriores para lá de atribulados e intensos.



Ainda em novembro, o então auxiliar técnico assumiu o cargo interino após a demissão de Guto Ferreira para sacramentar o acesso do Inter na Série B, com um empate em 0 a 0 contra o Oeste, em Barueri. Depois, ainda conduziu a equipe a duas vitórias nas rodadas finais da segunda divisão, com desempenho de sobra para ser efetivado.

A partir daí, Hellmann cumpriu à risca os passos traçados anteriormente para se especializar antes de por as mãos à obra. No começo de dezembro, visitou o amigo Neymar, na França, para um estágio no Paris Saint-Germain. Depois, concluiu um curso na CBF, onde ouviu conselhos de Fábio Carille, Jair Ventura e Zé Ricardo, todos da nova safra de técnicos e que vivenciaram recentemente uma transição semelhante à sua, de auxiliares a treinadores efetivados.



O período de imersão nos estudos da profissão servem de lapidação a uma vida árdua, que já o preparam com um "casco duro" para os percalços de sua primeira temporada como técnico. Antes de se tornar auxiliar e fazer carreira no Inter, Odair é um sobrevivente da tragédia com o ônibus do Brasil de Pelotas, em 2009. O barranco, como costuma dizer, mudou sua história, com o ouro olímpico no currículo e um novo capítulo a ser escrito.




> Confira a entrevista com Odair:

GloboEsporte.com: Você conseguiu encontrar tempo para descanso nessas férias, ou já usa esse período para analisar o elenco e as opções à disposição para montar o time?
Odair Hellmann: Deu para tirar dois, três dias. Fui para a França no dia 7 (para um estágio no PSG). Depois, saí do curso da CBF no dia 17. Descanso, só a partir do dia 18. Há jogadores voltando de empréstimo, da base, o plantel. Estamos fazendo essa composição para chegar ao dia 2 (na reapresentação) o mais próximo do ideal, mas sempre com o elenco aberto.


Falando de seu período de "férias". Como foi o curso na CBF?
O curso é proveitoso em todos os sentidos, em termos de conteúdo e de experiência da convivência com outros profissionais. Estávamos entre 105, 106 profissionais fazendo o curso. Isso agrega muito pessoalmente. E algumas convicções você vai lá e vê que está no caminho certo. A teoria é importante desde que consiga transferir para a prática, do jeito mais simples possível.

E como foi o contato com Fábio Carille, Zé Ricardo, Jair Ventura, que tiveram uma trajetória semalhante à sua?
Eu conversei com todos. O Carille deu uma palestra, conversamos um pouco. Eu conversei mais com o Zé Ricardo e com o Jair Ventura, que estavam na minha sala de aula. A gente pode trocar informações, conversar bastante. Eles me desejaram sorte e falaram que vai dar certo. Deram confiança e muita força para que eu consiga também fazer um bom trabalho.


"A pimeira coisa que o treinador precisa ter é respeito à cultura do time. Precisa saber a história. E o mais importante e definidor são as características com que você pode contar. Tem que ver como foram os times vencedores, que fizeram com que o torcedor criasse toda essa paixão"


E o período no PSG? Viu algo de muito diferente do que é feito aqui?
Os treinadores no Brasil, até vendo hoje, a maioria já está utilizando a metodologia de trabalho. Mas com o plus de que precisa dar resultado muito rápido. Além de apresentar bom futebol, boa performance, é exigido o mais rápido possível. Senão, ele cai. Lá, eles têm o tempo maior. Vide o Pep Guardiola. Ano passado, iniciou o processo, uma reconstrução no Manchester City. Os primeiros resultados em termos de performance apareceram neste ano, não em termos título. Aqui, ainda está imediatista.

Como foi a recepção do Neymar à sua efetivação?
Ficou feliz pela oportunidade e disse que vai dar tudo certo. Passou só coisas boas para que essa oportunidade se concretize de melhor.

Em sua primeira entrevista coletiva como técnico, logo após a efetivação, você disse que iria respeitar a cultura do Inter ao montar seu modelo de jogo. A ideia para 2018 passa por aí?
Eu acho que a pimeira coisa que o treinador precisa ter é respeito à cultura do time, ficar o mais próximo disso. Precisa saber a história. E o mais importante e definidor são as características com que você pode contar. Não adianta ter ideia e gostar da situação se as características não te favorecem. Tem que ver como foram os times vencedores, que fizeram com que o torcedor criasse toda essa paixão.


"Eu sei que o futebol brasileiro exige resultado. Mas eu não fico pensando no lado negativo. Não tenho tempo para isso. Meu tempo é gasto pensando em bons treinos, em formar um grupo muito bom para que o Inter possa disputar todas as competições sendo respeitado como sempre foi"


Qual vai ser seu maior desafio?
Eu acho que o desafio de todos os treinadores, buscar a formação do time, a formatação de um grupo. Um time é importante. Não são 11 jogadores que fazem de um clube vencedor, que ganhe títulos. Acredito na criação de um grupo forte, em manter e aumentar a qualidade. E que tenha essa disputa sadia de jogadores. Eu falo muito no aspecto coletivo. Quanto mais rápido conseguir buscar esse time e formatar esse grupo, mais próximo dos objetivos vai ficar.

Antes, você falou no imediatismo. Não teme que isso possa ocorrer contigo?
Fui jogador por 17 anos, estou nessa função há nove. Eu sei que o futebol brasileiro exige resultado. O treinador tem que saber disso, tem que trabalhar com a convicção e saber que tem que ter resultado. Mas eu não fico pensando no lado negativo. Acredito e vai dar certo. Eu não fico pensando se não der. Não tenho tempo para isso. Meu tempo é pensando em bons treinos, em buscar um time ideal, formar um grupo muito bom para que o Inter possa disputar todas as competições sendo respeitado como sempre foi.

Eu caí do barranco. Não tem tempo para coisa negativa. Isso não existe na minha concepção de vida. Não teria saído de Salete (cidade natal), com três, quatro mil habitantes, para ir atrás de um sonho. De lá não saiu mais ninguém. Se eu pensasse por esse lado, não teria conseguido as coisas até hoje. Vai dar certo. A vida não é feita só de rosas, mas tem que ter equilíbrio. Minha vida é assim.

Você falou do acidente com o ônibus do Brasil de Pelotas, que, claro, mudou sua vida. Você consegue assimilar tudo o que passou de lá até se tornar técnico do Inter?
A minha história foi desses momentos. O que consegui foi que, em todos esses momentos, soube levantar o mais rápido possível, seguir em frente, buscando novas possibilidades e, nas vitórias, nas alegrias da vida, também ter a humildade que amanhã vai acontecer tudo de novo. Eu amadureci muito cedo. Me fez formar um casco duro.

Você sempre mostrou que estava pronto para assumir a equipe nos momentos de transição de comando. Agora, terá a chance de montar o time pela primeira vez...
Essa preparação vem de toda a minha trajetória, aprendendo com todos os profissionais, construindo uma identidade, vai agregando coisas de vários profissionais, cria uma identidade, uma concepção. É isso que vou tentar colocar em prática. Eu acredito muito que quanto mais um time jogue bem, mais próximo da vitória vai estar. É uma busca pelo bom futebol. Essa é a ideia.

Pelo que falamos até aqui, sua ideia é ter um time que valorize a posse de bola para 2018?Futebol é troca de passe, é ter a bola no pé. Mas às vezes tem um adversário que te dificulta. A busca é por boa performance de futebol. E boa performance significa qualidade de jogo. Essa qualidade de jogo é um dia a dia que se constrói buscando caracterísicas, para que se concretize um time ideal.


"A gente vai desde o primeiro dia buscar um time forte que possa ser respeitado em todos os jogos. Isso é uma construção e uma confiança. O que aconteceu em 2016 e 2017, que sirva de lição para que nunca mais passe por isso".


Qual sua avaliação sobre os reforços contratados até agora?
Roger é experiente, centroavante de referência, bom jogador. Uma história de vida magnifíca, vai agregar dentro e fora do campo. Gabriel e Ruan são mais jovens, que se destacaram na Série B. São jogadores de força. Então, foram boas aquisições.

Até onde o time do Inter pode chegar em 2018?
A gente vai desde o primeiro dia buscar um time forte que possa ser respeitado em todos os jogos. Isso é uma construção e uma confiança. O que aconteceu em 2016 e 2017, que sirva de lição para que nunca mais passe por isso. Não temos que pensar na Série B. Temos que deixar para trás. Já caiu, já acabou.

Você se contenta apenas com a permanência na Série A?
Vamos desde o primeiro dia de treinamento tentar formar o time mais forte e mais competitivo para que em todas as competições jogar no nível mais alto que puder. Construir um time que seja forte dentro do campo. Aqui é o momento de entrevista, posso falar um monte de coisa. A prática é o que vai levar a isso. É esse processo.

Você se prepara para essa transição com uma responsabilidade maior. Como vai lidar com isso?
Como sempre fui. Os jogadores me conhecem. Sempre tive relação pessoal com eles de muito respeito e vou continuar tendo essa relação de muita verdade. Será meu dia a dia como treinador. Minha essência vai continuar a mesma, o meu momento de descontração, de brincar. Eu não vou mudar minha pessoa. Vai ter o momento de exigir, como teve quando assumi interinamente, mas sempre com muito respeito. Eu acredito muito nessa relação interpessoal.

Está muito ansioso?
Eu estou louco que chegue dia 2 de janeiro. Essa é a minha vontade. Tirar essa vontade para colocar o trabalho em campo. Me sinto honrado, muito feliz. Agradeço a todos e vou me dedicar muito para conseguir fazer um bom trabalho, para que o torcedor colorado possa se sentir feliz de novo.

Conteúdo publicado originalmente no site GloboEsporte