Publicada em 27/12/2017, às 12:23

Garçom e com velho faro de gol: Fred volta ao Cruzeiro para ser solução no ataque

Raposa fechou 2017 com atacantes lesionados, negociados e em baixa. Camisa 9 tem ano irregular no Galo, mas participa de 41 gols e retorna mais maduro ao clube que chama de "casa"

O Cruzeiro surpreendeu muita gente quando fechou com Fred, no mesmo dia da rescisão do atacante com o Atlético-MG, seu maior rival. Apesar de formado na base do América-MG, o camisa 9 sempre nutriu carinho especial pela Raposa, onde atuou entre 2004 e 2005, e disse que, 12 anos depois, está voltando para casa. Essa mudança de lado em Belo Horizonte se justifica, ao menos nos números: Fred é exatamente o que o Cruzeiro mais precisou ao longo da temporada 2017, marcada por rendimentos abaixo do esperado, negociações e lesões dos principais atacantes do elenco. O Espião Estatístico mostra o que o goleador de 34 anos agrega, além da experiência, ao time de Mano Menezes.


Resolve aí, Fred: os problemas do ataque cruzeirense em 2017


No início da temporada, Rafael Sobis e Ábila se revezavam na titularidade em jogos da Primeira Liga, do Campeonato Mineiro e da Copa do Brasil. Os dois travaram boa disputa, e fecharam o mês de fevereiro com bons números: 6 gols de Sobis, 5 de Ábila. Pedia-se até que os dois jogassem juntos, mas Mano preferia apenas um atacante mais avançado - geralmente, Sobis iniciava as partidas, e o argentino, mais de área, entrava no segundo tempo. A tática vinha dando certo.



Ábila e Rafael Sobis: rodízio de Mano funcionou nos primeiros meses de 2017 (Foto: Pedro Vilela/Light Press)



No meio do ano, o Cruzeiro ainda aproveitou duas oportunidades do mercado para encorpar o setor ofensivo: as poucas chances de Rafael Marques no Palmeiras e o afastamento de Sassá do Botafogo (o meia Marcos Vinícius seria envolvido na negociação). Raniel já estava no elenco, mas pouco atuava. Com excesso de jogadores para a posição, em agosto a Raposa deixou Ábila rumar para o Boca Juniors, que o repassou por empréstimo ao Huracán, seu clube anterior.



Na época, Rafael Sobis ficou quase três meses sem marcar. Sassá ganhou espaço e correspondeu. Raniel passou a entrar com mais frequência. Rafael Marques, por sua vez, não aproveitou tanto suas chances.




Raniel encara o Flamengo, na final da Copa do Brasil: foto quase não acontece, pois atacante saiu de campo lesionado logo no início da partida (Foto: Rafael Ribeiro/Light Press)



Na reta final de 2017, a coisa degringolou. Sassá teve lesão grave no joelho direito, precisou parar na metade de setembro para fazer uma cirurgia e não retornou mais. Com Sobis suspenso do jogo de volta da final da Copa do Brasil, contra o Flamengo, Raniel foi o escolhido e, com quatro minutos em campo, lesionou a parte posterior das duas coxas, também parando no estaleiro até 2018. Rafael Marques havia recém-retornado de cirurgia na hérnia inguinal, e já não vinha em grande fase. O meia Arrascaeta, então, passou a ser a alternativa mais confiável de Mano Menezes para fechar o ano, mesmo improvisado. Após o título da Copa do Brasil e a garantia da vaga na Libertadores, o treinador teve tranquilidade para rodar o grupo com o garoto Jonata e Judivan, que parara por mais de um ano com lesão no ligamento do joelho.


É nesse contexto, misto de falta de sorte com problemas clínicos, rendimento abaixo do esperado de jogadores e negociação do jogador de melhor aproveitamento ofensivo em momento importante, que Fred chega ao Cruzeiro. E, esperam dirigentes e torcida, para resolver.


Fred 2017: irregularidade, apesar de números relevantes


Como é possível que um atacante de 34 anos que marca 30 gols e distribui 11 assistências não tenha feito grande temporada? É o caso de Fred, e nos apressamos em explicar: na metade de março, o camisa 9 já havia anotado 16 gols, sendo dez no estadual. É bem verdade que terminou a Libertadores, torneio mais importante disputado pelo Atlético-MG, com seis bolas na rede, sendo quatro num só duelo, diante do modesto Sport Boys, da Bolívia, no Independência. Na fase mata-mata, não marcou. No meio do ano, viveu jejum raro de 12 partidas sem marcar. Nas dez rodadas finais do Brasileirão, anotou sete gols e acendeu a esperança de um 2018 melhor. A capacidade técnica, ninguém discute. Por isso, o sarrafo é mais alto.

(Foto: Infoesporte)



Apesar da irregularidade, o gráfico demonstra a superioridade de Fred sobre os concorrentes em 2017, sobretudo em participações em gols. O atacante segue com alta média por partida e não perdeu a capacidade de fazer pivô para os companheiros. Ábila era quem mais se aproximava do estilo matador, embora utilizasse mais a força física do que a técnica.


Brasileirão 2017: números mostram estilos diferentes da concorrência


Fred ostenta marcas superiores aos cruzeirenses nas estatísticas do Campeonato Brasileiro 2017, até pelo volume de chances que recebeu - era titular absoluto, enquanto os cruzeirenses tiveram toda a montanha-russa de mudanças no time descrita acima.

Ainda assim, vejamos: Fred detém a melhor média de gols por partida, mas é seguido de perto por Sassá, talvez o que mais agradou nas poucas oportunidades que teve, até sua grave lesão. O jovem revelado pelo Botafogo se adaptou rapidamente e mostrou qualidades, como explosão, força e precisão nas finalizações. Necessitou de menos arremates que Fred para cada gol marcado, inclusive. Seria ele o principal candidato a reserva imediato em 2018?

(Foto: Infoesporte)



Rafael Sobis, ex-companheiro de Fred no Fluminense, não tem por costume ser centroavante fixo, apesar de ter atuado assim em 2017. Cai pelos lados e vem buscar o jogo mais atrás com frequência - ter sido flagrado em um único impedimento em 23 jogos demonstra essa tendência. Aos 32 anos, não conta com o mesmo vigor físico de antes. É comum que faça etapas iniciais melhores, o que justifica o alto número de substituições - constatação que vale também para Fred. A característica de guardar mais posição na área, no entanto, preserva a condição física e favorece o recém-chegado. Além do faro de gol mais apurado.

Raniel, 21 anos, fez boas partidas quando solicitado. Exibe mobilidade (apesar dos 1,84m) e capacidade de finalização. É centroavante, mas também joga no meio-campo. Rafael Marques está em idade avançada (34) e não é homem de área fixo. Deixou a desejar nos gols (somente um) e assistências, diferencial que possui por ajeitar bem a jogada para quem chega de trás, tanto de cabeça (possui 1,90m), quanto com os pés.

Mano Menezes confia num departamento médico mais vazio e num salto técnico dos comandados para um 2018 mais tranquilo no setor de ataque. O retorno de Fred já é um bom começo.

Conteúdo publicado originalmente no site GloboEsporte