Publicada em 07/09/2017, às 14:39

D'Ale fala sobre idolatria, polêmicas e descarta aposentadoria: "Mais dois anos"

Em entrevista exclusiva à RBS TV em sua casa, argentino revela detalhes da carreira, bronca com a imprensa e aborda futuro no Inter

D'Alessandro enverga a braçadeira de capitão do Inter (Foto: Ricardo Duarte/Divulgação Internacional)

D' Alessandro manda no Inter? Chegou a brigar com Tite? Vai jogar até quando? Com o peito aberto, o capitão do Inter e um dos maiores ídolos colorados na última década recebeu a RBS TV em sua casa e respondeu essas e outras perguntas sobre carreira, vida e planos para o futuro.

Em papo descontraído, revelou que não pensa em parar. Ou seja, pretende jogar ao menos mais dois anos. Bola, ele tem. Na temporada, o "velhinho" de 36 anos já conseguiu seis gols e 13 assistências. Mesmo sem participar da campanha do rebaixamento no ano passado, fez questão de voltar para "levar o clube de volta aonde ele merece".

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Confira abaixo trechos da entrevista:

GloboEsporte.com – Você se considera um dos maiores ídolos do Inter?
D'Alessandro – Acho que não. Tenho uma história, sim. Fico muito orgulhoso de falar isso. Mais um atleta que passa fazendo o trabalho, o que mais gosto e da melhor maneira. Mas daí a ser o maior do clube, acho que não. O Inter teve ídolos importantíssimos que ganharam títulos e representam muito para o clube, história e torcida.

Como é estar perto de entrar na lista dos 10 jogadores com mais partidas pelo clube? Quando você chegou, lá em 2008, imaginava isso?
Não. Imaginava fazer um bom trabalho. Jogar no Brasil naquele momento era uma ideia muito boa. Era um objetivo a partir do interesse do clube, que foi me buscar lá na Argentina. Virou o passo mais importante na carreira. Mas cheguei em um clube onde me senti muito bem desde o primeiro momento que entrei no vestiário. O pessoal me acolheu muito bem, a direção. Isso fez com que tenha sido muito melhor, minha adaptação foi muito boa. Chegar em um clube e ganhar um título já no primeiro semestre é um passo significativo. Sempre digo a mesma coisa. Tive sorte de fazer parte de equipes muito boas do Inter, com jogadores experientes, cascudos, de uma qualidade muito boa. E quando acontece isso, fica tudo mais fácil.

Como um jogador com uma canela tão fina assim pode jogar tanto?
Sempre conto como exemplo, assim como fiz no ano passado, quando voltei à Argentina e o pessoal me chamou para dar uma palestra para crianças, jogadores que estão surgindo. Nunca fui titular nas categorias de base por causa do porte físico. O treinador falava: "Tu não estás ainda preparado para aguentar com essas tuas canelas, com esse físico". Entrava 15, 20 minutos, meia hora. E assim eu fui me formando. Obviamente, queria jogar. Ficava irritado porque queria jogar.

Hoje não fica quase (irritado)?
Hoje um pouco menos (risos). Obviamente, estou mais maduro.

Voce se transforma quando está em campo?
Eu sou outro, mas tem que ser assim. As pessoas que me conhecem veem bem a diferença do D'Alessandro dentro de campo e fora. São poucas, o círculo é muito fechado. Elas sabem como sou fora, então sabem que dentro de campo sou muito diferente.

Você sabe que as pessoas às vezes lhe chamam de chato dentro de campo...
Acho que sou um pouco, sim. Mas acho que me acostumei assim. Isso até me atrapalhou um pouquinho pela questão de cartão amarelo, vermelho. Mas sempre me dirijo ao juiz com respeito, só que essa insistência às vezes fica chata, né.

Não é raro ver jogadores discutindo com você dentro de campo, mas no fim trocando camisas, abraços...
Eu sou um dos caras que acha que dentro do campo a gente defende a nossa camisa. Não penso que vale tudo. Tem que existir um respeito, um limite, porque estamos todos fazendo o mesmo trabalho, mas eu vou brigar pelo meu. Vou tentar ganhar, mas não de qualquer forma. Quando o juiz apita, aí é outra coisa.

Como é esse outro D'Alessandro? Você consegue fazer coisas que pessoas "normais" fazem?
Claro. Se eu falar que sou muito tranquilo, o pessoal não vai acreditar (risos). Eu sou bem caseiro, não tem outro lugar melhor que na minha casa, com a minha família. Vou no shopping, no restaurante, no mercado...

Conversa com os colorados e com os gremistas também?
Converso, tiro foto, faço minha vida normal. O futebol é bonito, te dá mais retorno do que imagina. E esse reconhecimento fora (de campo) aqui no Sul é difícil. Conseguir da outra parte (gremistas) é um sentimento bom, de respeito pelo meu trabalho.

O evento beneficente (Lance de Craque) é reflexo do que foi passado por seus pais, das dificuldades que tiveram?
Os valores que tenho foram passados por eles, e isso consigo levar até hoje. Acho que vou levar até o final da minha carreira. E na vida também. A gente sonha quando criança, eu assistia aos jogos de futebol, os jogadores ganhando dinheiro, carro bom, uma casa, uma família bem sucedida... Aí eu falava: "Quero isso". Só que é muito pouco do que tem que correr para chegar aonde eles chegaram. E não foi fácil. Foram muitos anos de luta, força, dedicação, de terminar a escola, que eu não queria e (os pais) não deixaram eu decidir por mim. Sempre bateram nessa tecla de fazer as duas coisas. Em algum momento, eu ia decidir se ia continuar estudando ou seguir no futebol. Isso foi lá pelos 15, 16 anos. Saía de casa às 7h30 e voltava às 20h. Ia de ônibus até o River, treinava de manhã e de tarde ia para o colégio, no clube também. Então, passava o dia todo lá.

Teve uma época que você trabalhava até para entregar pizza?
Trabalhava à noite. Tinha uma pizzaria a duas quadras da minha casa, onde conhecia a galera. Eram alguns amigos meus. A gente se juntava para sair para a balada, se divertir um pouquinho. Trabalhava sexta e sábado à noite e domingo, às vezes, porque segunda começava a escola de novo. Como meu pai não deixava usar moto, que ele acha perigoso, eu ia de bicicleta. Fiz uma caixa na frente, onde a pizza chegava normalmente bem, com o queijo no meio (risos). Ganhava minha grana para sair. Aí não tinha que pedir para o meu pai.

Tem uma imagem de você como gandula no jogo do River...
Lembro. Peguei uma época muito boa do River, em 1995, 96 e 97, que foi o tricampeonato (argentino) do River, a Libertadores e a Supercopa, em 96. Uma época que tive a oportunidade de jogar com aqueles jogadores depois, como Ortega, Almeyda, e com outros que não cheguei a jogar junto, mas convivi, como o Francescoli, hoje manager do clube, Gallardo, meu treinador ano passado. A gente só via os atletas na TV, não tinha essa possibilidade de falar com eles ou estar perto. Quando terminava o jogo, a gente se conformava com um calção, uma meia, alguma coisa para levar de troféu.

Sua família se sente em casa no Rio Grande do Sul? Parece que você fez questão que um de seus filhos nascesse gaúcho...
Mesmo com o Santino e a Martina nascendo fora do Brasil, se adaptaram muito bem, se sentem em casa. Tanto que no ano passado a gente saiu, mesmo sendo nosso país, a adaptação para eles foi difícil, demoraram um três ou quatro meses. Gostam daqui mesmo, falam perfeito, sem sotaque. A única coisa mais diferente que fizemos daqui foi ficar mais perto da minha família, da família da minha mulher.

E por que sair do Inter e voltar ao River Plate? Houve um desconforto grande com o Inter, você viu que a situção não estava boa? Algumas pessoas lançaram algumas teses...
Desses sempre vai ter, aquelas pessoas que esperam essa oportunidade sempre vão dar seu palpite mesmo sem saber a verdade. Eu não saí pelo Inter, pelo clube. Saí porque achei que era o momento, que tinha chegado no meu limite, na minha paciência e em coisas que tinham acontecido não só em 2015, mesmo com a gente fazendo uma campanha muito boa na Libertadores, um Campeonato Brasileiro bom. Eu não sou de externar coisas do vestiário, sou o primeiro a blindá-lo. Mas posso dizer que houve coisas que incomodaram, que eu não estava acostumado. Coisas que eu não estava de acordo e, quando não estou de acordo, me coloco à frente para defender o grupo. E muitas vezes sou visado por isso, recai tudo. Nunca sozinho, mas eu me coloco para defender as minhas coisas e o grupo. E eu batia muito. Falei: "Não preciso estragar tudo que fiz até agora no clube. Preciso manter essa empatia com o torcedor, me cuidar". Foi a primeira vez que pensei isso e achei que era a melhor decisão. Aí apareceu o River.

Dizem que você manda no vestiário, que teria autoridade demais até...
O que é mandar? Eu gostaria de saber o que é ter autoridade.

Na questão de escolher treinador, você teria influência? Você chegou a brigar com o Tite ou não?
Nunca tive (influência na troca de treinador). Eu tive uma discussão com o Tite, e ele reconheceu isso também, como pessoas maduras e que se respeitam. Até fui fazer um curso no Rio de Janeiro e queria ouvir a resenha dele, do (Fabio) Capello, do (Marcelo) Bielsa. Aí falei com ele. Já tinha falado em outro momento. Sempre respeitei ele, só que isso faz parte do futebol. Não foi o primeiro técnico que discuti na minha carreira. Têm coisas que aconteceram que eu reconheci. As coisas que inventam na imprensa e são mentiras eu não posso reconhecer nem falar do assunto, porque é dar crédito à pessoa que inventa a notícia.

Você não gosta muito da gente (imprensa)?
Eu tenho um pé atrás. Acho que, sem merecer, fui muito maltratado em 2009. Não por veículos de TV ou de jornal. Só fez com que eu começasse a me defender. Porque, você sabe, quando tudo está bonito, todo mundo quer matéria, entrevista, o cara te trata bem. Elogiar na boa é muito bom, fácil. Agora, manter uma regularidade nas críticas e, na ruim, falar a verdade ou ouvir a pergunta, de repente, ou querer falar e não soltar uma matéria... Hoje é muito fácil falar: "Eu tenho uma fonte lá dentro e confio nela". Qual é a fonte? Como é difícil também, e aí me coloco do lado de vocês, acreditar no atleta quando ele tenta fugir de alguns assuntos que de repente aconteceu e vocês não têm alcance de saber. Só não entendo a parte de passar o limite. Quando a coisa é pessoal, aí eu preciso me defender. E não é com um, com outro. Infelizmente, acabam pagando todos.

No calor do jogo, algumas coisas acontecem. Uma vez, você disse para um colega nosso: "Pulo da barca". Ainda há as brincadeiras de internet... Você assimilou tudo isso?
Sim. Acho que tinha ouvido essa frase, o momento não era bom, e soltei. Não saiu de mim, né (risos). Como também assumo que falei "time grande não cai". Foram palavras minhas. E hoje tenho que aguentar. Não foi um erro, mas, pô, não deu certo. Vou fazer o quê? A gente está exposto a hoje falar uma coisa e não se cumprir lá na frente. Mas nunca fugi disso, não me incomoda. Está na cabeça da outra parte de Porto Alegre e eu fico muito presente neles. Eu tiro positivo disso aí. Faz com que me sinta mais forte.

Até quando você vai jogar?
Estou pensando em jogar mais dois anos, eu acho, até os 38. Não quero me colocar uma data de validade, mas imagino que mais dois anos posso fazer o meu trabalho, me esforçando, me dedicando. Porque acho que nao é só jogar, é seguir a conduta de profissionalismo, de chegar cedo no treino...

Os treinadores que trabalharam com você já falaram de seu profissionalismo. Voce acha que é um exemplo a ser seguido?
É o exemplo dos meus pais. E eu aprendi que nada se consegue sem esforço, sem se dedicar. E o futebol tem uma vantagem com o resto das profissões. Quem joga futebol, gosta. Nem todo mundo faz o que gosta, mas precisa. Então, tenho tudo na minha mão, me preparei para jogar futebol, sou remunerado para fazer o que gosto. Por que vou deixar de fazer? Hoje os jovens conseguem as coisas muito fácil e acabam se perdendo no caminho.

Até quando essa relação no futebol vai ser no Inter?
Eu tenho contrato até o final do ano. Não estou pensando (em renovação). Deixei bem claro. A gente colocou o Inter como prioridade. Eu posso falar do que aconteceu e o que eu decidi. Poderia ter ficado no River, ganhei dois títulos em seis meses, a família estava mais adaptada. Falam que sou marqueteiro, mas eu não gosto.

Você se acha o jogador mais comentado do futebol gaúcho?
Eu ouvi cada coisa que, se for por isso, prefiro ficar no anonimato. Machuca bastante. Quando as pessoas não convivem no dia a dia contigo, não te conhecem, estão sentadas em um escritório falando, falando e mentindo. O futebol tem essa parte também. Eu gostaria de sair na rua e tomar uma cervejinha como fazia antes. Mas hoje não dá. O futebol te dá muitas coisas, mas te tira também. Mas vale a pena.

O que você tira de melhor lembrança relacionada ao Inter?
O que mais me deixa tranquilo é que a história é feita de coisas boas e ruins. Às vezes, entram coisas que ficamos na dúvida se estamos fazendo bem ou mal. Mas nunca desistir. No momento ruim, vamos nos esforçar mais porque vai ter que vir a coisa boa. E fico feliz que têm momentos muito bons que, quando sair do clube, vão ficar para meus filhos, vão ser reconhecidos, o meu nome vai estar no museu do clube, o torcedor vai lembrar de mim. Isso não tem preço. A Libertadores de 2010 foi o título mais importante.

O Mazembe (eliminação no Mundial de 2010) foi o pior?
Foi. Nós fomos com muita ilusão, muita vontade. Tínhamos um sonho que era ser campeão mundial. Tínhamos um time muito bom e nada deu certo naquele dia. Faz parte do futebol.

Uma das coisas que vai continuar é a gozação. Vão fazer questão de dizer que o Inter está na Série B. Você, se tiver oportunidade, vai continuar tirando sarro do outro lado?
Isso é o folclore do futebol. Nós também temos que saber o momento em que a gente se encontra. Aqui nos últimos 10, 12 anos foi diferente. Caiu tudo para o nosso lado. O time mais vencedor foi o nosso e faz um, dois anos que o futebol começou a mudar. E é assim. É feito de momento, fase boa, fase ruim e estamos vivendo uma de ajudar o clube, que vai se reerguer, não tenho dúvida disso. Nós caímos, mas vamos nos levantar. Temos todas as condições, forças necessárias e, no final do ano, levar o clube de volta aonde ele merece.

Fonte: Globoesporte.com
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