Publicada em 31/03/2017, às 08:15

Polêmica com e-mails e demora em inscrição reavivam duelo Inter x CBF

Após STJD divulgar que perícia apontou falsificação de documento por parte do clube no caso Victor Ramos, direção tem dificuldade em regularizar situação de Edenílson

Cúpula colorada tem desconfiança de atitudes da CBF (Foto: Tomás Hammes / GloboEsporte.com)

Ao afirmar em nota que a perícia apontou falsificação nos e-mails encaminhados pelo Inter no caso Victor Ramos, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) provocou uma nova turbulência interna no clube gaúcho, que sofre também com a dificuldade em inscrever o volante Edenílson no Gauchão por conta de uma demora nos trâmites da CBF. Esta conjunção de fatores deflagra mais um capítulo na rivalidade entre o Colorado, o órgão jurídico e a entidade que administra o futebol brasileiro.

Na quinta-feira, o ex-presidente Vitorio Piffero e o vice-jurídico Gustavo Juchem eram aguardados no tribunal para prestar esclarecimentos em relação aos fatos investigados pela suposta inscrição irregular do zagueiro pelo Vitória. Ocorre que ambos não puderam comparecer por "problema de saúde e compromissos profissionais", conforme o órgão, e os depoimentos acabaram adiados.

No comunicado sobre o reagendamento da consulta aos dirigentes em seu site, o STJD aproveitou para informar que, após perícia, ficou comprovada a falsificação de parte dos e-mails inseridos no caso. Segundo o texto, houve adulterações de "forma e conteúdo, subtração de palavras, textos, nomes e frases, além de inserção indevida de palavras, letras e assinaturas, modificações essas de conteúdo capazes de descaracterizar o seu sentido original".

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O Inter estranhou tal procedimento. O clube garante que não alterou o sentido das conversas e rechaça a falsificação por entender que não tirou vantagem alguma com a compilação apresentada para provar as conversas entre Reynaldo Buzzoni, diretor de Registro e Transferência da CBF, e o Vitória. Nos bastidores, um clima de revolta tomou conta dos colorados. Apesar de evitar os microfones, os representantes gaúchos desejam uma apreciação técnica, de quem pagou e encomendou a perícia.

Inter reclama de demora

Paralelo a isso, o Colorado luta contra o tempo para inscrever Edenílson, já que é o prazo final do Gauchão se encerra nesta sexta. O jogador já treinou e foi apresentado, mas segue sem ser regularizado. Longe disso. Os gaúchos reclamam que há três dias não conseguem se comunicar com a CBF. O nome do atleta aparece trancado no sistema de registro. O clube alega ter todos os documentos para confirmar a negociação, como o contrato do Genoa, onde vinha atuando, e da Udinese, a quem pertence.

O sistema de gestão que resulta no Boletim Informativo Diário (BID) não permite imprimir o contrato do jogador. Nos corredores do Beira-Rio, há uma preocupação pelo período escasso. Afinal, o fuso horário adiantado da Itália (cinco horas) pode complicar o trâmite. Os colorados esperam que a entidade entre em contato com a federação italiana para receber o aval e regularizar o atleta para, então, colocá-lo na disputa do Gauchão.

Embora evite os microfones, há um entendimento no Inter de que o imbróglio esteja originado em uma espécie de retaliação por parte da CBF devido ao mal-estar da polêmica com Victor Ramos. Assim, o clube permanece em alerta e aguarda os novos desdobramentos.

Clube nega falsificação

Em contato com o GloboEsporte.com, o diretor jurídico Gustavo Juchem disse que justificou a ausência no STJD, na quinta-feira, por uma questão profissional que estava marcada para mesmo dia e horário do depoimento. Contudo, se colocou à disposição para comparecer ao tribunal para a audição, sem nova data marcada. O dirigente também reiterou a idoneidade do Inter no caso. E disse que o clube trabalhará para comprovar isso.

– O Inter vai preparar a sua defesa e vai prestar os esclarecimentos necessários para comprovar que não houve falsificação de qualquer documento – afirmou.

Juchem também se mostrou surpreso com o comunicado pelo STJD pelo fato de o processo estar em trâmite. E lamentou o fato de o clube não ter dado a sua versão ao órgão.

– Eu não diria suspeito, mas é incomum o tribunal divulgar provas, ainda mais enquanto esse processo está tramitando. O que incomoda é que ainda não houve o contraditório a esses fatos divulgados, o Inter ainda não pôde dar a sua versão. Não houve qualquer tipo de falsificação e vamos comprovar isso – ressalta.

À noite de quinta-feira, o ex-presidente Vitorio Piffero se manifestou e também reiterou "completa confiança" nos advogados do clube.

A denúncia feita pela cbf

Em 9 de dezembro, a CBF enviou ao STJD um ofício no qual afirma que os e-mails que vazaram com uma suposta conversa entre o diretor de Registro e Transferência, Reynaldo Buzzoni, e dirigentes do Vitória, foram adulterados. As mensagens eletrônicas foram utilizadas pelo Inter para tentar reabrir o processo sobre a inscrição irregular do zagueiro Victor Ramos e, com isso, tirar pontos do time baiano e evitar o rebaixamento.

Na época, a CBF negou que tivesse a intenção de acusar o Inter de falsificação de documentos. Alegou, porém, que os e-mails supostamente adulterados faziam parte do processo e pediu ao STJD que eles fossem legitimados e, caso a falsificação fosse comprovada, que o caso fosse levado para investigação no Ministério Público do Rio de Janeiro.

O Colorado, por sua vez, chegou a ingressar com pedido de "suspeição" à investigação. A reclamação inicial do departamento jurídico do clube teve a ver com o sorteio do auditor Mauro Marcelo de Lima e Silva para conduzir o procedimento. O Inter contestava a manutenção do auditor por sua ligação com a CBF, uma das partes interessadas no inquérito. A contestação, porém, não foi reconhecida.

Sem sucesso no âmbito nacional, o Inter recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) e entende que a abertura do inquérito no STJD seria uma retaliação a isso. Com sede em Lausanne, na Suíça, o CAS atendeu ao pleito do clube e marcou o julgamento para o dia 4 de abril, antes do início das séries A e B do Campeonato Brasileiro (em 13 e 14 de maio, respectivamente) e, por coincidência, no dia em que o clube gaúcho completa 108 anos.

Entenda o caso victor ramos

Em 1º de dezembro, o Inter apresentou no STJD um documento com 42 páginas pedindo para fazer parte no processo que investigou supostas irregularidades na inscrição do zagueiro Victor Ramos, iniciado pelo Bahia. Na luta contra o rebaixamento, o clube gaúcho pedia que o tribunal reabrisse o caso para punir os baianos com a perda de pontos nas partidas em que o jogador atuou no Campeonato Brasileiro.

A principal linha sustentada pelo clube gaúcho diz respeito ao não cumprimento das normas do Transfer Matching System (TMS), que regulamenta as transferências internacionais no futebol. O jogador, que pertence ao Monterrey, do México, estava emprestado ao Palmeiras até se transferir ao Vitória, em fevereiro do ano passado. Na visão dos advogados do Inter, essa negociação ocorreu de maneira irregular.

No dia 8 de dezembro, o auditor Glauber Guadelupe, vice-procurador-geral do STJD, arquivou o pedido do Inter. No dia seguinte, a CBF enviou um ofício ao STJD alegando que os documentos usados pelo clube no processo – a troca de e-mails entre o diretor da CBF e o Vitória – foram adulterados. A entidade pediu a impugnação dos documentos pelo tribunal.

O Inter, por sua vez, garantiu a autenticidade dos documentos. E, insatisfeito com a decisão do tribunal, entrou novamente, no dia 12 de dezembro, com um pedido de reexame do caso Victor Ramos no STJD. Uma semana depois, o procurador-geral do STJD, Felipe Bevilacqua, optou por manter o caso arquivado.

Depois, um documento registrado pelo 26º Ofício de Notas do Rio de Janeiro em 15 de dezembro apresentou a íntegra da troca de e-mails entre o diretor de registros da CBF, Reynaldo Buzzoni, e o Vitória, com instruções sobre os procedimentos necessários para a inscrição do jogador por parte do clube baiano.

Fonte: Globoesporte.com
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