Publicada em 24/03/2017, às 08:00

Abel revela bronca a jogadores no intervalo: "Mandei para aquele lugar"

Após derrota parcial de 2 a 0 ao Botafogo, treinador muda o Flu no intervalo. Virada no Nilton Santos é construída em 23 minutos, com gols de Richarlison e Renato Chaves

Abel Braga admitiu bronca na equipe e revelou emoção com a virada: "Sobram lágrimas" (Foto: André Durão)

Aos 16 minutos do primeiro tempo, Roger abriu o placar para o Botafogo. Aos 25, anotou mais um. Enquanto isso, o elenco do Fluminense, apático, parecia não estar em outra dimensão, bem longe do Nilton Santos. Na saída do intervalo, Abel Braga, com cara de poucos amigos, deu o sinal de que a conversa no vestiário não seria boa. E não foi. Mandou o time todo "para aquele lugar". Xingou mesmo. Foi a bronca, aliada ao desempenho dos atletas, que mudou a partida no segundo tempo.

O 3 a 2, construído em 23 minutos, com dois gols de Richarlison e um de Renato Chaves, fez o comandante ter a certeza do caminho trilhado. São duas vitórias (outra contra o Vasco) e um empate (diante do Flamengo) em clássicos no Carioca. Mesmo com a mescla de time titular e reserva na Taça Rio, acredita ser possível ser campeão, como já o foi da Taça Guanabara. Agora, isso não apaga a má atuação do primeiro tempo.

- Xinguei eles. Mandei eles tomarem onde não gostam, mandei para aquele lugar. E, no fim, se tornou uma das vitórias mais importantes da minha carreira. - disse Abel, para depois completar:

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- A minha maior vitória hoje foi dizer a eles, no momento de euforia, que eu não retiro nada do que falei no intervalo. Não tiro uma vírgula do que disse no intervalo. Uma. Nem ponto e vírgula, nem exclamação, nem interrogação. Zero. Não tiro nada. E eles entenderam o recado.

Mas qual foi a diferença? Para Abel, a atitude. A marcação adiantada, a marcação individualizada sem a bola. E, claro, as entradas de Wendel e Pedro.

- Sinceramente, me faltou voz no intervalo. E, agora, sobraram lágrimas de emoção. Futebol é isso - encerrou o técnico.

Com a vitória, o Flu chegou a seis pontos e lidera o Grupo C da Taça Rio. No domingo, encara o Macaé. Ainda não está definido se com time titular ou reserva.

Confira a íntegra da coletiva:

Virada e conversa no intervalo
Xinguei eles. Mandei eles tomar onde não gostam. E, no fim, se tornou uma das vitórias mais importantes da minha carreira. No começo do ano, no começo dos treinamentos, enxergava alguma coisa lá na frente. Até onde enxergava, conseguimos, vi a Taça Guanabara, que conquistamos. Agora, enxergo mais coisa lá na frente. Foi assim a minha palestra antes do jogo. Muita coisa aconteceu. Simplesmente, estava vendo a equipe do ano passado. Por sorte, talvez papai do céu, não saímos com três ou quatro. Treinamos a marcação em cima da nossa defesa, a gente imaginava que o Botafogo fosse fazer. O Botafogo precisava ganhar e fazer pontos. Treinamos isso. E, por incrível que pareça, tomamos gols de bola perdida no ataque. Não se correu atrás. E, em um dos lances, teve caneta. Era para fazer a falta. Sinceramente, me faltou voz no intervalo. E, agora, sobraram lágrimas de emoção. Futebol é isso. Se respeita até determinado momento. Não tenho palavras, minha adrenalina está a mil. O que eu vi hoje... Me lembrei de um amigo, espero que ninguém fique com ciúme. É o Sandrão, ex-vice de futebol. Ele dizia, irmão, pode perder para todo mundo, menos para o Botafogo. E o Botafogo me emocionou, aqui tenho minha carreira como jogador, comecei minha carreira como treinador. Depois de 32 anos, fui homenageado pelo presidente do Botafogo. Isso criou uma emoção muito grande. Estou feliz.

Leitura de jogo
O Botafogo pressionou, mas fez gols no contragolpe. Era para ser o contrário. Nós tínhamos de fazer o contragolpe. Deu para reparar, perdendo por 2 a 0, quantos tivemos no segundo tempo? Faltava recuperar a bola. O Botafogo ficou absoluto, com o placar e com o primeiro tempo que fez. O gol saiu logo no começo, isso ajudou. Aí, depois, a gente viu depois uma equipe de cabra-macho. Fez o primeiro, o segundo e foi buscar o terceiro. E buscou. Ainda apelei aos jogadores, no intervalo. Eles não têm de falar com juiz. Eles têm de bater na cara deles mesmo. Têm de se beliscar. A última impressão é a que fica. E essa última foi fantástica.

Mais sobre a conversa no intervalo
Me faltou voz. Minha voz sumiu. Após o jogo, disse a eles que não tiro uma vírgula do que disse no intervalo. Uma. Nem ponto e vírgula, nem exclamação, nem interrogação. Zero. Não tiro nada. E eles entenderam o recado. Eu tenho de me colocar na arquibancada. Nós temos de nos colocar lá. Deixa eu ficar por aqui.

Lucas, Luiz Fernando e titulares no domingo
Não vou dar time, não. O Luiz Fernando optei pois ele estava muito bem. Ele teve treino magnífico ontem, mas ele não conseguiu dar saída de bola. Estava em um dia ruim, como estava toda a equipe. Será que melhoramos só pelas trocas? Eu perguntei a eles. Óbvio que não. Mudou a atitude de todos os jogadores. O Lucas, ontem, na primeira parte do treino, no trabalho de posse de bola, sentiu formigamento. Fez exame, não acusou nada. Não foi no músculo que ele teve problema. Preferimos perder ele nesse jogo do que perder por mais tempo. Fiquei muito contente com o Renato. Vai brigar por posição, meu amigo. Domingo vou pensar ainda. Uma vitória nos coloca classificados por pontos. Vou jogar por vantagem na semifinal. E, como voltamos à liderança do grupo, vamos tentar algo na Taça Rio.

Richarlison
Talvez pelo gol, pela atuação, sim, pode ter sido a melhor atuação dele. No primeiro tempo, uma bola perdida por ele, originou o gol do Botafogo. Esse jogador e o Wellington... se encontra muito pouco no Brasil. São jogadores que trabalham pelo lado do campo, sabem jogar nas costas dos volantes adversários e ainda acompanham o lateral até o final. Não foi surpresa. Surpresa foi o primeiro tempo.

Orejuela
Nunca vai escutar de mim que alguém fez falta. Eu trabalho com um grupo. Acredito nos meus dois zagueiros que falharam no domingo passado, por exemplo. Acredito muito no Luiz Fernando. Mas eu tinha de fazer alguma coisa. Se eu pudesse, mudaria cinco ou seis. Mudei dois e guardei uma troca caso alguém machucasse. O Wendel, o que jogou... ele mudou completamente o ritmo da equipe.

Orientações no intervalo
Atitude, dinâmica. Começou a marcar mais em cima, individualizou a marcação sem a bola. Clássico é muito complicado. Quem viu o primeiro tempo, apostou em 5 a 0 ao Botafogo. Podemos sair daqui envergonhados, falei a eles. Degolados. Mas... É trabalho. Depois do que falei a eles, se eles não tivessem confiança em mim, não aconteceria o que aconteceu. Futebol tem coisa engraçada. Renato Chaves e Henrique, por exemplo, não perdem um jogo há 13 partidas. Minha defesa toma porrada todo o jogo. Passou a fase de classificação sem sofrer um gol. É assim. E, se amanhã eu tirar algum, confio no Nogueira, no Reginaldo. Acho que aconteceu algo de bom. Nós sentimos o sabor do primeiro tempo. Aquilo mexeu, aquilo acordou. Fez confiar. Mas, acima de tudo, não sou protagonista de nada. Fiz o que qualquer treinador teria de fazer. O que quero é respeitar a instituição e o torcedor. É a nossa verdade. Se fosse 2 a 2 ou 2 a 0 ao Botafogo, com essa atitude, estaria falando a mesma coisa aqui. Com anos de futebol, o cara fica bocudo. Não tenho medo de falar. Acho que o horário do jogo foi ridículo. É uma falta de respeito com o torcedor e com os clubes. A minha maior vitória hoje foi dizer a eles, no momento de euforia, que eu não retiro nada do que falei no intervalo.

Fonte: Globoesporte.com
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