Publicada em 14/03/2017, às 09:38

Da fome e abandono ao choro no Gre-Nal: a trajetória de Michel até o Grêmio

Volante reconta história desde o campo da várzea na comunidade da Penha, no Rio de Janeiro, até o gramado da Arena, no clássico gaúcho, e a estreia na Libertadores

Michel posa ao lado da mulher Joyce e com a filha Luiza no colo (Foto: Eduardo Moura/GloboEsporte.com)

A morte da mãe, em algum espaço obscuro para as lembranças mais dolorosas; o abandono imediato do pai após a perda; os avós sempre presentes e em luta constante para dar o que comer ao projeto de jogador; um campinho de terra tradicional, no alto da comunidade da Penha, no Rio de Janeiro; a filha Luiza e a esposa Joyce; a quase desistência do futebol.

Tudo isso escorreu do olho de Michel naturalmente antes do Gre-Nal 412. O volante, titular do Grêmio nas últimas partidas com a lesão do capitão Maicon, não escondeu a emoção com a oportunidade de jogar o maior clássico gaúcho e ser titular na Libertadores na mesma semana.

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O meio-campista de 26 anos carrega sua história em cada passo dado em busca do sucesso no Tricolor. A família é o motivo para não ter desistido do futebol após período de ostracismo no Novorizontino, no início do ano passado. Os avós José e Ivonete insistiram em seu sonho, durante a infância e adolescência. Hoje, a filha de um ano e 10 meses olha para o jogo, na TV ou na Arena e grita, toda serelepe: "gol do papai"!. Depois de passar pelo clube do interior paulista e ser campeão da Série B pelo Atlético-GO, Michel começa 2017 já com um Gre-Nal e uma Libertadores no currículo. O clássico, diante de mais de 45 mil pessoas, é o que mais lhe marcou.

– É muita alegria. O jogador chega naquele momento de concentração, a saída do hotel para o estádio, fardamento, preleção. Até a entrada em campo é especial. Só quem passa pode explicar. É uma emoção muito grande, em que às vezes não dá nem para controlar, uma lágrima rola. Mas é isso mesmo, o jogador se prepara para isso. Na hora de enfileirar os times, olhar a torcida do Grêmio, o pessoal gritando. Foi emocionante – disse Michel em entrevista ao GloboEsporte.com e RBS TV em sua casa, num condomínio da zona norte de Porto Alegre.

PERDA DA MÃE E FOME





Aos três anos, Michel perdeu a mãe. Em ato consequente, também foi abandonado pelo pai. Passou a ser criado pelos avós maternos Ivonete e José. Foram eles os responsáveis por manter aceso o sonho do pequeno de se tornar um daqueles homens que tanto acompanhava na televisão, especialmente aqueles que vestiam o rubro-negro do Flamengo.

Hoje, com o desejo realizado, Michel é quem ajuda a família a ter uma vida melhor. Tirar os avós da comunidade da Penha, onde cresceu, é tarefa praticamente impossível. Mas orgulha-se em dar conforto para aqueles que fizeram de tudo por ele. Porque a realidade era complicada. O jogador não esconde que os recursos eram parcos e, por vezes, ia treinar com fome.

– Eu plantei uma semente no coração para buscar esse sonho. Eu dizia que ia ser jogador, tinha essa certeza no coração. Hoje, poder colher esse fruto que plantei há muito tempo, até passando por dificuldade de não poder treinar, não ter o que comer, ter que tirar dinheiro de onde não tinha, graças a Deus, conseguimos passar por isso e realizar o sonho – revela o volante.

CAMPO DE TERRA NA PENHA

Os primeiros passos de Michel no mundo da bola foram dados em um campo de terra em um projeto social na comunidade da Penha, onde morava com os avós, no Rio de Janeiro. Pouco ou nada poderia ser feito além de jogar futebol. Em um amistoso, o técnico do São Cristóvão gostou do então meia e o chamou para o treinar no clube. A partir daí, a coisa ficou séria.

Michel era o "10 e faixa" do time. Do São Cristóvão, onde se profissionalizou, pulou para o Porto Alegre, clube que tinha Assis, irmão e empresário de Ronaldinho Gaúcho, como dono. Madureira, Guarani de Palhoça, Camboriú e Novorizontino apareceram logo à frente. No Paulistão do ano passado, foi bem e chamou a atenção do Atlético-GO, onde seria campeão da Série B.

– Com 18 anos, assinei meu primeiro contrato profissional. E ali iniciei minha trajetória. Era um campinho de terra, um sonho que, muitas vezes, parecia longe demais ou até mesmo impossível – disse o atleta.

PONTO DE ÔNIBUS E DE AMOR

Michel é casado com Joyce, que o acompanha Brasil afora. São 10 anos de relacionamento, iniciado de maneira inusitada. A garota reconheceu as chuteiras e a mochila do então jovem volante do reality show Joga Bonito. No ponto de ônibus, questionou se realmente era participante. No dia seguinte, Michel a esperava na esquina do colégio para ambos caminharem juntos desde então.

Curiosamente, a vida de casado teve o primeiro capítulo em Porto Alegre. Foi o primeiro destino para os jovens em 2011, quando Michel vestiu a camisa do time de Assis. Os perrengues no Lami, no extremo sul da capital gaúcha, os acompanharam. Seis anos depois, instalado em uma zona nobre no outro lado da cidade, vive também outra realidade em campo.

– Agora estou vivendo o lado oposto. Enfrentava o Inter e o Grêmio pelo Porto Alegre como um time pequeno. Respeitando todos os clubes de menor expressão, mas o Grêmio é gigante – diz o jogador.

AVÓS E FILHA COMO MOTIVAÇÃO

Se os avós pavimentaram o caminho para o sonho, aliados ao esforço do menino, o núcleo familiar de Michel é quem move o volante atrás dos marcadores em campo atualmente. Foi ao lembrar da filha Luiza, então com poucos meses de vida, que o atual titular gremista rechaçou a aposentadoria. Sem muitas chances no time paulista, esteve prestes a largar o futebol.

– Têm aqueles momentos mesmo de querer desistir. Passei por isso no passado, de querer chutar o balde e não jogar mais. Ano passado, não estava sendo aproveitado no Novorizontino e pensei várias vezes em largar. Passei por muitas dificuldades e não ia ser agora. Já tinha minha filha e tinha que lutar por ela – conta.

A decisão mostrou-se acertada e foi premiada. Michel, desde então, sagrou-se campeão brasileiro da Série B, transferiu-se para o Grêmio e já tem experiência em Gre-Nal e Libertadores, na vitória por 2 a 0 sobre o Zamora, na última quinta, na Venezuela.

– Em todos os jogos, o pensamento está principalmente na Luiza. Tenho que buscar o melhor na minha carreira para dar um futuro melhor para ela. A minha imagem profissional será um exemplo – reconhece o meio-campista.

CHORO NO GRE-NAL E LIBERTADORES

O ápice – até agora – veio nos últimos dias. A lesão de Maicon abriu espaço para Michel no Gre-Nal 412, pelo Gauchão. O capitão esteve concentrado, mas Renato avisou na preleção que ele não teria condições de jogar. A reação imediata foi de surpresa, seguida de um aviso para a família.

– É uma surpresa. Até depois da preleção liguei para minha esposa e ela ficou muito contente. Já estava preparado, tinha treinado alguns trabalhos como titular na semana – revela.

Ao se posicionar no túnel da Arena, prestes a pisar no gramado para o clássico, Michel admite que deixou escorrer uma lágrima no rosto. Claro que a jornada ainda segue – e o caminho é longo –, mas atingir o momento atual já é especial. Poucos dias depois, com mais antecedência e menos surpresa, soube que faria sua estreia também na Libertadores.

– Essa oportunidade de estar jogando Gre-Nal, no qual eu estreei no Gauchão, e estar jogando a Libertadores é o que sempre busquei profissionalmente – finaliza.

Maicon segue fora nesta semana, por conta da lesão na panturrilha direita. Assim, por pelo menos mais dois jogos, Michel segue seu caminho com passos forjados em um sofrimento passado, mas hoje molhados pelo choro da alegria e a esperança por glórias maiores.

Fonte: GloboEsporte
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