Publicada em 09/03/2017, às 09:22

Dorival Júnior vê retomada ao, enfim, comandar o Santos na Libertadores

Em entrevista ao GloboEsporte.com, técnico diz que quer finalizar trabalho interrompido em 2010 após briga com Neymar e se defende das críticas recentes

Caminho do tetra: Dorival Júnior quer levar o Santos a mais um título da Libertadores (Foto: Ivan Storti/Santos FC)

Dorival Júnior quer terminar, em 2017, um trabalho que começou e foi interrompido em 2010. A discussão com Neymar durante a partida contra o Atlético-GO no Campeonato Brasileiro daquele ano causou a demissão do treinador, que havia classificado o Santos para a Libertadores do ano seguinte com a conquista da Copa do Brasil.

De longe, o técnico viu a equipe que montou recheada de jovens talentos vencer o tricampeonato continental em 2011, com Muricy Ramalho no banco. Agora, a partir desta quinta-feira, quando o Santos estreia contra o Sporting Cristal, no Peru, terá a chance de buscar sua própria glória.

– Para mim, é uma retomada – disse Dorival, em Lima, em entrevista ao GloboEsporte.com.

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Para isso, porém, o técnico terá que superar uma desconfiança que ele mesmo admite sofrer. Nas últimas partidas na Vila Belmiro, ouviu vaias da torcida, incomodada com o desempenho da equipe que perdeu três dos sete jogos no Campeonato Paulista – uma reação que Dorival relaciona ao ambiente político do Santos em ano de eleições.

Uma vitória sobre o atual campeão peruano ajudará a silenciar os protestos. Assim, Dorival conta que escalará um time mais conservador em Lima, com dois zagueiros de origem. Ele, porém, diz que não desistiu da formação que coloca um volante no miolo da defesa, esquema que melhora a saída de bola do time.

Leia a entrevista do GloboEsporte.com com Dorival Júnior:

Você mudou o esquema tático da equipe para o jogo contra o Corinthians. Antes você tinha o Yuri, um volante, ao lado de um zagueiro. Vai repetir a forma de jogar do clássico contra o Sporting Cristal?
Basicamente, sim. O Yuri vinha fazendo uma função de zagueiro. Estávamos carentes naquela função. Com o Cleber em condições, naturalmente ainda precisando de sequência, preparamos para essa primeira partida uma função um pouco mais conservadora. Até porque o Yuri não deixou de executar essa função. Era o mesmo esquema, apenas que a saída de bola ganhava em qualificação. O Yuri tem esse início de jogada muito bom.

Não pretende desistir do esquema anterior?
Não, de maneira nenhuma. É um esquema que pode ser usado. Não era uma situação imutável, tanto para manutenção, quanto para uma possível alteração, e assim vai continuar sendo.

Como você analisa o grupo do Santos na Libertadores?
É o mais difícil. As quatro equipes brigam por classificação, a que conseguir passar de fase poderá brigar nas finais da competição. É um grupo muito qualificado, todas as equipes merecem atenção especial.

Você finalmente comanda o Santos em uma Libertadores. Em 2010, você montou a equipe, venceu a Copa do Brasil, mas deixou o clube após aquela discussão com o Neymar. Como você viu aquela equipe ser campeão continental no ano seguinte?
De uma maneira natural. Acho que participamos sim daquele trabalho, de modo efetivo. Aquela equipe foi montada para isso. Ganhou o Campeonato Paulista, a Copa do Brasil, estava bem classificada no Brasileiro naquele instante. Depois sagrou-se campeã muita bem dirigida pelo Muricy (Ramalho), uma pessoa por quem tenho carinho muito grande. Fiquei muito feliz, a construção de um trabalho vencedor não passa apenas pelo momento em que ele finaliza, mas acima de tudo por etapas importantes, e eu pude participar de uma maneira ou de outra.

Estar nessa Libertadores é a retomada de um trabalho que foi interrompido?
Para mim, é uma retomada. Quando voltei ao Santos, eu disse que eu finalizaria esse trabalho. Espero que isso venha a acontecer. Sei que o momento é um pouco complicado, duas ou três derrotas e parece que elas encobrem tudo o que já foi feito. O momento é um pouco conturbado, mas não tenho dúvidas de que esse trabalho vai ser finalizado. O Santos está preparado para viver um grande momento novamente.

Aquela situação foi importante ao Neymar, que amadureceu após o episódio. E para você?
Foi importante. Não tenho dúvidas de que foi importante para o Neymar, para mim profissionalmente também. Natural que eu gostaria de ter finalizado aquele trabalho, foi um trabalho implantado com muita dificuldade no início, e nós montamos um elenco que ficou durante muito tempo fazendo com que o Santos brigasse a todo instante por uma grande competição. Foi um momento importante, para mim e para ele. Proporcionou amadurecimento de todos.

O Santos era apontado como um dos melhores times do país. Por qual motivo vocês estreiam na Libertadores sob desconfiança?
Não tem motivo nenhum. No futebol brasileiro é assim, há 20 dias o Santos era a melhor equipe do país, e 20 dias depois perdeu o encanto por causa de duas derrotas, quando naquele momento (antes dos reveses) eu também pontuava que tivéssemos um pouco de paciência porque as oscilações aconteceriam. Existe uma grande desconfiança, mas daqui para fora. De fora para dentro, temos consciência do momento que estamos vivendo, que precisamos melhorar, temos capacidade para melhora, mas não têm fundamento as coisas que estão sendo colocadas. Acho que tudo é questão de bom senso e equilíbrio. O Santos está preparado, com elenco consciente das dificuldades que terá, mas (sabe) da confiança que vai existir a partir do instante em que as coisas voltarem a uma normalidade. Só lembrando que nós tivemos aí no mês de janeiro nove jogadores fora de combate. É apenas um momento, um momento que passa.

Com a volta do Renato, do Lucas Lima e do Ricardo Oliveira você se aproxima do seu time ideal, faltando ainda o retorno do Vanderlei. É a equipe que está na sua cabeça?
Ela montada, sim. Espero que a desenvoltura de todos os jogadores seja muito boa. É a equipe que tivemos na estreia do campeonato (Paulista). E na estreia, com todos os jogadores, exceção ao Ricardo Oliveira, fizemos uma excelente partida (6 a 2 sobre o Linense). Depois a equipe foi se dissolvendo aos poucos e tendo que ser reparada dentro da competição. As pessoas não têm ideia, mas é um trabalho que exige tempo, uma maturação. Paciência é o que não temos no futebol brasileiro.

Passa também pela dificuldade de adaptação dos reforços?
Fato normal. Tudo dentro da normalidade. Nós que estamos no meio entendemos essa situação. Por isso que coloco a você que não existe desconfiança dentro do nosso grupo. Temos consciência do que representa essa competição, do que representa o Paulista, o momento que estamos vivendo. Tudo isso vai passar, e estaremos mais fortes para o resto ano.

Você relacionou recentemente as críticas ao time a um ambiente político do Santos em ano de eleição. Como você blinda o elenco e a você mesmo desse tipo de situação?
Tentamos não nos envolver. Desde a primeira rodada, o time ganhando de 6 a 2, cinco ou seis pessoas mexendo com jogadores num erro mínimo que acontecia, gritos desnecessários. Isso aí a gente sabe que acontece. A política é muito direta dentro do clube, principalmente em um clube como o Santos. Não há como desvencilhar um assunto do outro. Uma pena que acontece. O verdadeiro torcedor do Santos dificilmente toma uma posição como essa. Isso me surpreendeu, no primeiro momento de instabilidade da equipe, aquela reação no jogo contra o São Paulo em que a equipe fazia uma boa partida.

Você vê alguma relação com o seu cargo? Acha que pode estar sendo minado?
Você está acompanhando o nosso ambiente desde ontem. Se você percebeu alguma coisa (de errada), gostaria que você colocasse aí. De livre e espontânea vontade, dentro do que você tem observado. Nosso ambiente é esse, saudável, de respeito, de cobrança, de preocupação por esse momento, mas nada além disso. Os questionamentos no nosso país são fora do normal. Até duas semanas atrás era a equipe sensação do país, duas semanas depois é uma equipe que gera desconfiança. Vai continuar sendo dessa forma.

Próximo adversário: Sporting Cristal
Local: Estádio Nacional de Lima, no Peru
Data e horário: quinta-feira, 21h45 (de Brasília)
Escalação provável: Vladimir; Victor Ferraz, David Braz, Cleber e Zeca; Renato, Thiago Maia e Lucas Lima; Vitor Bueno, Copete e Ricardo Oliveira
Desfalques: Vanderlei (fratura no dedo), Léo Cittadini (fissura em osso do joelho), Gustavo Henrique e Luiz Felipe (ruptura de ligamentos do joelho)
Arbitragem: José Argote apita o jogo, auxiliado por Carlos Lopez e Luis Murillo (todos da Venezuela)
Transmissão: Fox Sports
Tempo Real: GloboEsporte.com, a partir das 20h30

Fonte: GloboEsporte
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