Publicada em 07/03/2017, às 08:32

Jucilei topa ser "o coração" do São Paulo, e vê chance de título brasileiro

Após seis anos de aventuras pelo mundo, volante fala sobre novo posicionamento, explica porque priorizou o dinheiro durante seis anos, e vê Tricolor forte com Ceni

Jucilei faz força para virar titular do São Paulo de Rogério Ceni (Foto: Érico Leonan/saopaulofc.net)

84 graus. Essa foi a diferença de temperatura que Jucilei encarou quando trocou os 32 graus negativos da Rússia pelos 52 positivos dos Emirados Árabes Unidos. Período em que o volante abriu mão de possíveis glórias como títulos no Brasil ou a Seleção para fazer seu pé-de-meia.

Para quem foi do gelo ao deserto, entrar em forma rapidamente é um desafio até que brando, mas é a atual meta de Jucilei. No último domingo, nos 4 a 1 contra o Santo André, ele fez sua primeira partida como titular do São Paulo, clube que tentou contratá-lo em 2014 e conseguiu três anos depois.

A nova etapa na vida empolga o volante, animado com o técnico Rogério Ceni e com as chances do Tricolor na temporada.

– É um time qualificado, jovem, se entrosando a cada jogo, com uma média de gols altíssima. Temos tomado muitos gols, mas também fazemos bastante. Acho que o São Paulo pode brigar por títulos sim, inclusive o do Brasileirão – afirmou o volante, disposto a melhorar fisicamente para ajudar a defesa de uma equipe tão ofensiva.

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– O primeiro volante é o coração do time, é sempre o cara que vai correr mais mesmo.

Veja a íntegra do bate-papo de Jucilei com o GloboEsporte.com:

Por que, depois de seis anos em centros pouco midiáticos, você voltou ao Brasil?
Em 2014 o São Paulo tentou, mas não foi possível por causa do Al Jazira. Resolvi voltar agora por causa da família, fiquei muito tempo distante da minha esposa, dos meus filhos que estão crescendo (três meninos de um, quatro e seis anos de idade), familiares, amigos. Então resolvi passar uma temporada no Brasil, perto de todos. Minha família ficou um mês na China, mas no outro ano e meio eu fiquei sozinho e foi bem difícil.

Você escolheu o São Paulo por conta dessa conversa de 2014?
Na época o Gustavo (Vieira de Oliveira, ex-gerente de futebol) estava aqui e foi se encontrar comigo no Rio. Estava tudo praticamente certo, mas faltava a liberação do Anzhi (RUS) e o Al Jazira chegou uma proposta melhor. Resolvi ir para lá.

O São Paulo mudou muito de 2014 para cá. O que você tem achado do clube?
O São Paulo está em construção. Tem um time muito forte, bem qualificado, tudo para fazer uma boa temporada, com títulos. Faz tempo que o São Paulo não ganha títulos, e isso é importante para o grupo que está aqui, dar essa alegria ao torcedor, ao presidente, à diretoria.

Quando você saiu do Brasil, em 2011, o Rogério Ceni era o principal jogador do São Paulo. Ficou surpreso em tê-lo como técnico?
Não, o Rogério sempre foi capitão, ídolo aqui, experiente dentro e fora de campo. Alguns optam por ser treinadores, outros empresários, acho que ele escolheu o caminho certo. Tem tudo para ser um grande treinador, até mesmo na Europa. Está num caminho bem certinho.

Por que você acha que ele pode ter sucesso na Europa? Os treinadores brasileiros têm dificuldade de serem bem-sucedidos lá.
O Felipão teve sucesso na seleção portuguesa. O Rogério é um cara que joga com a equipe, vibra muito, cobra bastante. Isso é importante, ele é um líder conosco. Acho que tem tudo para dar certo.

Você acompanhava o Corinthians logo depois de sair do clube?
Não muito pela diferença de horários. Eram sete horas na Rússia e nos Emirados, 11 na China, então eu sabia mais dos resultados.

É que um mês depois de você ser vendido, o Rogério fez o centésimo gol no Corinthians.
O Rogério sempre foi um especialista, faltas próximas à área eram meio gol, uma precisão impressionante. Mas eu acompanhei pela internet, eu vi o gol (risos).

Há relatos de você ter jogado como zagueiro na China, e quando saiu do Brasil você era um volante que chegava ao ataque para fazer gols. Como aconteceu esse recuo?
No Corinthians eu jogava mais de segundo (volante), o Ralf protegia à frente da defesa e eu e o Elias saíamos mais. Quando fui pro Anzhi, o Guus Hiddink (técnico holandês) disse para eu jogar na frente da defesa porque eu tinha bom passe, boa saída e marcava muito bem. E o Felix (Magath, técnico alemão) no Shandong me colocou na zaga porque eles contratam muitos estrangeiros para o ataque e a defesa fica frágil. Os fortões atropelavam, então ele colocou dois chineses como volantes e montou a zaga comigo e o Gil para ficar mais forte.

Como você se sente fisicamente?
Muito melhor. Eu cheguei bem abaixo, meu último jogo foi no dia 30 de outubro, e jogo é totalmente diferente de treino. Estou me aprimorando a cada dia, me empenhando, dando meu melhor nos treinos para estar 100% fisicamente e ficar à disposição do Rogério para aguentar 90 minutos.

Como é ser o primeiro volante num time que ataca tanto?
O Rogério joga bem ofensivo, mas todo mundo tem que ajudar. A defesa começa no ataque, se fizermos pressão eles vão rifar a bola, não podemos deixá-los sair tocando e enfiar a bola. O primeiro volante é o coração do time, é sempre o cara que vai correr mais mesmo.

Como foi se adaptar a três países tão diferentes, como Rússia, Emirados e China?
Para mim foi muito tranquilo porque venho de uma família muito humilde, que não tinha dinheiro para nada. Eu passei dificuldades na infância. Então, quando fui para esses lugares não senti muito. Na Rússia, suportei o frio por três anos, depois fiquei um ano e meio num lugar quente para caramba, e na China peguei neve há um mês. Foi super tranquilo.

Quais foram a menor e a maior temperatura que você pegou?
Na Rússia peguei menos 32. E nos Emirados 52 graus (risos).

84 graus de diferença! Qual é pior?
Menos 32 é pior. No calor você treina à noite e passa o dia no ar condicionado. Mas frio é frio, com neve, em qualquer lugar.

Foi por conta dessa família humilde que você priorizou o lado financeiro em mercados pouco vistos ao longo desses seis anos?
Eu pensei em fazer meu pé-de-meia, em me estabilizar financeiramente. Pensei na minha família, que é grande. Sou a coluna da minha família. Botei esse objetivo na minha cabeça, as oportunidades apareceram e eu não podia recusar.

Quantas pessoas têm nessa família?
Não tenho mãe, meu pai era separado e não me reconheceu, fui criado pelos meus avós. Perdi minha avó e agora tenho meu avô de 90 anos, e irmã, primos, tios. Sempre foi uma família muito unida que me ajudou desde o início. Eles me compravam uma chuteira, davam um dinheiro aqui, outro ali. Meu primo viu que eu tinha potencial nos campinhos de várzea.

Você estreou na seleção brasileira junto com Neymar, Ganso, Pato, David Luiz. Como foi ver, à distância, eles construírem uma carreira na Seleção ou na Europa?
Eu não me arrependi. No momento em que fiz minha escolha estava com a cabeça tranquila. Sentei, vi as melhores opções e aceitei na boa. Fui para um país onde o futebol não é visto. Aqui, se eu fizer 15 bons jogos num time grande, a imprensa vai começar a elogiar, dizer que mereço uma oportunidade na Seleção. Lá, posso jogar bem 50 vezes que não vai adiantar.

Você jogou alguns meses sob comando do Tite no Corinthians, entre 2010 e 2011. O que pensa dele?
É um cara excepcional, entende muito de futebol, respeita os jogadores. É um dos melhores treinadores do Brasil, disparado. Acredito que ele não tenha acompanhado meu futebol, não tinha como. Mas agora tenho chance (de ser convocado) fazendo um bom trabalho, com dedicação e bons jogos.

Que avaliação você faz do seu jogo de domingo? Sentiu falta de ritmo de jogo?
Acredito que fui bem. É claro que tenho muito a crescer, estou melhorando fisicamente, o entrosamento conta muito. O ritmo pega bastante, tenho que estar sempre jogando para atingir um bom nível. Quando você está jogando quarta e domingo, voa em campo, fica confiante. Mas agora no começo o melhor é ir na segurança.

Você está emprestado até o fim do ano. Gostaria de estender essa passagem pelo Brasil ou acha que essa aventura pelo mundo ainda não acabou?
Eu cheguei agora, tenho esse ano todo de contrato. Penso primeiro em fazer um bom trabalho no São Paulo, honrar essa camisa, buscar nossos objetivos. Está nas mãos de Deus. Se for vontade dele que eu fique mais dois, três, quatro anos, assim vai ser. Senão, tenho contrato com o Shandong até 2019, teria de voltar e decidir.

Fonte: GloboEsporte
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