Publicada em 04/03/2017, às 09:26

De rejeitado na Argentina a ídolo de três países: a trajetória de Lucas Barrios

Esnobado por clubes de seu país natal, centroavante que pode estrear no clássico, marcou época no Chile, na Alemanha e no Paraguai

Foto: Arte ZH

É estranho pensar que um centroavante com quase 200 gols na carreira, titular absoluto da seleção de seu país, disputado por outras nacionalidades e ídolo de quatro grandes torcidas não tenha sido um craque desde criança. Lucas Barrios, hoje com 32 anos, custou a engrenar em um esporte que parece fazer tão bem. Talvez a explicação por essa "demora" esteja em sua infância.

Nascido em uma família pobre de San Fernando, cidade ao norte, na província de Buenos Aires, Lucas foi o antepenúltimo filho do casal Eugenio e Petrona. Ele, um argentino pedreiro, construtor e o que mais aparecesse para sustentar a prole. Ela, uma paraguaia dona de casa. Juntos, além de Lucas, tiveram outros sete filhos.

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Mesmo com o esforço dos pais, foi um período difícil. Não havia qualquer tipo de luxo, a estrutura da casa era precária e o dinheiro extra, uma miragem. Mas nada disso impediu que os familiares mantivessem uma união e um apego de invejar quaisquer clãs tradicionais de sobrenomes pomposos. Os Barrios Cáceres viveram, de fato, o laço de sangue que os uniu.

Neste elo, o mais forte do menino Lucas, que adorava jogar bola pelas ruas e tentava a vida no futebol, era Gabriel. Oito anos mais velho, o irmão cuidou do menino e viu potencial naquele guri franzino e veloz.

— Levei para jogar, mas o início era complicado — revela Gabriel.

Porque nem todo mundo enxergava aquele potencial. Aos 15 anos, o atual centroavante gremista, que tem estreia prevista para este sábado justamente no maior clássico do Rio Grande do Sul, foi dispensado do Huracán. Era magrinho demais.

Não foi só o Huracán. Lucas Barrios tentou a sorte no Argentinos Juniors. O clube que lançou Maradona e Riquelme não deu tantas chances àquele jovem centroavante. Ricardo Gareca, técnico que passou pelo Palmeiras e atualmente dirige a seleção peruana, foi o primeiro a proporcionar uma oportunidade. Mas antes de completar 20 jogos, o atacante iniciou sua romaria pelo futebol sul-americano.

— É até curioso que um jogador desta categoria não tenha sido destaque na base. Mas é exatamente o caso. Barrios não era o craque de seu time quando era jovem. Foi o tempo que o transformou em um centroavante brilhante — analisa o jornalista Alejandro Calumite, da TV TyC Sports, que acompanhou o início de sua carreira.

O meia Gastón Machin, ainda ídolo no Argentinos Juniors, confirma que tentou mostrar aos dirigentes que ali havia um futuro:

— Lucas era dono de um grande potencial físico e enorme vontade de jogar. Mas não teve chances. Depois, com tranquilidade para trabalhar, explodiu e virou o artilheiro atual. Sempre que nos encontramos, fico feliz de ver como cresceu, atingiu os sonhos e manteve a humildade.

Depois de uma breve passagem pelo Tigre, na segunda divisão argentina, onde pouco conseguiu jogar e nem fazer gols, Lucas recebeu uma oferta do futebol chileno. Mal sabia ele que aquele "sim" para o modesto Temuco, que seria rebaixado e tudo na temporada 2004/05, mudaria sua vida.

Os 12 gols marcados pelo pequeno time do sul chamaram a atenção dos maiores. De volta ao Argentinos Juniors, foi repassado ao nanico Tiro Federal-ARG. Mas seu futuro era no país banhado pela gélida água do Pacífico. Bem, não necessariamente à beira-mar. A oferta que apareceu foi do Cobreloa, do deserto do Atacama.

Lá, desandou a fazer gols. No primeiro ano, foram 26. O Atlas-MEX percebeu o talento do centroavante e o levou para uma rápida viagem na América do Norte. Mas Barrios tinha coração chileno. No ano seguinte, estava de volta, desta vez para jogar no Colo-Colo.

E aí precisamos parar tudo. Porque a vida de Barrios no Colo-Colo foi de herói.

— Aqui, foi um atacante poderoso. Fazia gols sempre, dedicava-se, comandava vestiário, tinha personalidade. Foi por ele que ganhamos — relembra o treinador de seu time na época, Marcelo Barticciotto.

Mas como todo herói, a história começa triste. No primeiro ano no Colo-Colo, em que marcou 38 gols em 43 jogos, Barrios viu o título nacional escapar de forma embaraçosa e melancólica. Contra o modesto Everton, o time da capital chilena abriu 2 a 0 na partida de ida. E levou 3 a 0 na volta. Tudo caiu. Mas, por outro lado, era exatamente o que precisava para dar a volta por cima e transformar seu enredo em consagração.

No ano seguinte, no dia da semifinal contra a Universidad de Chile (o Gre-Nal de Santiago, digamos assim), o centroavante passou mal. Uma indisposição estomacal quase o tirou da partida. Mas Barrios fez questão de atuar. E no segundo tempo, ocorre a cena emblemática. O Colo-Colo vencia por 1 a 0 (gol dele) e suportava a pressão de La U. Enquanto a equipe se defendia, Barrios estava em um canto do campo, agachado, mãos nos joelhos.

A dor no estômago causava ânsia de vômito e ele mais se arrastava do que participava. A bola foi afastada da defesa e encontrou Barrios claramente debilitado. Sobe a trilha de Carruagens de Fogo. O camisa 8 arranca. Ao dominar a bola, encara os adversários. E passa por todos, um a um. Na frente do goleiro, tem a frieza de fazer o golaço. Comemora com a torcida, corre até o meio-campo para recomeçar o jogo e desaba no círculo central. A dor, a emoção e a arrancada desequilibraram seu PH. Barrios vomita em campo.

A consagração do título desencadeia uma comoção no país. Órfãos dos atacantes Salas e Zamorano, os chilenos pedem que Barrios se naturalize pelo país e jogue pela seleção nacional. O atacante se sensibiliza, mas declina do convite. À época, diz que acharia ruim rejeitar a Argentina.

— Apesar de ser o herói e o ídolo que foi, era discreto fora de campo. Sabe que não lembro de nenhuma história sua fora de campo? Me lembro mesmo é das capas de jornal e revistas exaltando a qualidade do futebol — comenta o repórter Pato Cabello, da rádio chilena Bio Bio.

De lá, sai para a Alemanha, onde marcou época no Borussia Dortmund com quase 50 gols em dois anos e meio. Mas mesmo essa fama não o tirou o foco. Seus ex-companheiros se recordam dele como um discreto atacante matador. Na Europa, jogador é só mais um profissional do esporte mesmo. Só saiu de lá porque o time havia encontrado um substituto à altura: Robert Lewandowsi.

E aí precisamos parar tudo de novo. Lembram que Barrios não aceitou a seleção chilena para jogar pela Argentina? Pois apesar de todo o sucesso, foi esquecido pelo técnico de seu país. Quando recebeu a ligação de Tata Martino perguntando se queria vestir a camisa do lugar de nascimento de sua mãe, não hesitou. Barrios era o mais novo centroavante do Paraguai, destacando-se inclusive na Copa do Mundo da África do Sul.

E aquela não foi a única novidade de 2010. Naquele ano, juntou-se com a mulher, Melina — que largou a carreira no hóquei —, com quem teria o primeiro filho, Thomas. Depois, eles teriam ainda Violeta. E agora, aguardam a menina Sofia.

Voltemos aos clubes. Barrios viveu uma aventura chinesa e outra russa, antes de ser emprestado ao Montpellier, onde marcou seus últimos gols em solo europeu.

Depois de muito namoro — uma rápida busca por publicações antigas nos recorda que o centroavante esteve na mira de Cruzeiro, Inter, São Paulo e Corinthians —, conheceu o Brasil no Palmeiras. Começou bem, mas algumas lesões e a chegada de Cuca, que preferia escalar um centroavante mais móvel, Gabriel Jesus, diminuíram sua frequência em campo. Por isso, veio para o Grêmio.

Isso e a proximidade com San Fernando. Porque o sucesso em três continentes não mudou em nada a relação de Lucas com os familiares. Claro que a situação não é mais aquela de dificuldade da infância. O jogador, enfim, pôde dar um pouco de luxo aos pais. E, sempre que pode, vai visitá-los.

— Cada vez que ele vem aqui, é uma festa. Ok, trabalho com Lucas, o vejo mais vezes. Mas quando conseguimos nos reunir, percebo o quanto é bom estarmos todos juntos. Ele é meu irmão, mas acima de tudo, é meu amigo. E é uma ótima pessoa, a melhor — finaliza Gabriel Barrios, o irmão-amigo-assistente-motorista-motivador do centroavante que nunca desistiu, mesmo que os argentinos não tenham percebido seu talento quando era pequeno. Pois os chilenos, os paraguaios, os alemães o reconheceram.

Agora, só falta o Grêmio.

Fonte: Zero Hora
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