Publicada em 17/02/2017, às 14:15

Badalação zero e brilho na hora certa: como Scarpa chegou e explodiu no Flu

De ''patinho feio'' na base a xodó dos tricolores, camisa 10 ganhou o mundo com golaço do meio-campo e colhe os frutos após ser descoberto por Marcelo Teixeira

Scarpa e o violão: companheiros inseparáveis em qualquer viagem do Fluminense (Foto: Nelson Perez/Fluminense FC)

Antes do golaço de quarta-feira que ganhou o mundo e de virar realidade no time profissional do Fluminense, Gustavo Scarpa teve de suar. O meia de 23 anos passou a quinta-feira curtindo os efeitos do chute de antes do meio de campo na vitória por 5 a 2 diante do Globo-RN - a bola percorreu 59 metros antes de entrar no gol de Rafael.

Uma espécie de prêmio por tudo o que passou.

O começo no interior paulista não foi fácil. Superou as saídas de Guarani e Santos, até se destacar no Desportivo Brasil, ser descoberto por Marcelo Teixeira e chegar ao Flu. A pintura na Copa do Brasil vai valer placa. Ainda o fez ver que tudo valeu a pena. E até sonhar com algo a mais: quem sabe conhecer Cristiano Ronaldo e Messi em um eventual Prêmio Puskás?

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A verdade é que Scarpa é feliz no Flu. Não queria ser emprestado ao Red Bull-SP e muito menos tentar a chance em outro clube. Mesmo que quase tenha cansado de esperar sua vez. Uma conversa com o técnico Enderson Moreira em 2015, uma boa atuação no jogo definido por ele e pelo seu pai como o limite para ficar nas Laranjeiras e muitos gols bonitos formam a história do camisa 10.

Confira!

Quem foi o Gustavo Scarpa antes de Xerém?

Antes de ser contratado pelo Fluminense, o paulista de Campinas começou o sonho de virar jogador de futebol no Clube Andorinhas. De lá, disputou um torneio de futsal pela Ponte Preta antes de ir para o Guarani. O ano era 2002 e, pelo sub-9 do Bugre, enfrentou o Tricolor pela primeira vez ainda no salão. Não demorou a ganhar o apelido de “Chutavinho”, dada a insistência de buscar o gol de qualquer maneira. Dois anos mais tarde, conquistaria o primeiro título, o Paulista sub-11.

A migração ao campo foi difícil. Além de não ter sucesso no Guarani, não conseguiu ter sequência no Santos. Saiu após dois anos para defender o Paulínia, outro time do interior de São Paulo. Foi ter destaque mesmo no Desportivo Brasil, clube pelo qual jogou contra o Flu duas vezes (na Copa Brasil sub-15 em 2009 e na Copa São Paulo de Futebol Junior de 2012). As atuações o ajudaram a ser captado pelo Flu e a curar uma decepção: não fechou com o Sporting-POR, após treinar em Lisboa por duas semanas, por problemas burocráticos.

Camisa 10 e líder religioso: o Scarpa em Xerém

Na última vez que enfrentou o Flu, na Copinha de 2012, Scarpa entrou aos 25 minutos do segundo tempo. O Tricolor venceu o Desportivo Brasil por 4 a 2. Mas o meia mostrou qualidade nos passes, um indicativo de jogador técnico. Marcelo Teixeira, coordenador da base, que o monitorava desde o sub-15 quando ainda trabalhava no Manchester United, fez a contratação do time administrado pela Traffic (empresa de marketing esportivo). Não demorou para Scarpa virar titular, quase sempre com a 10 às costas.

Mostrou um lado polivalente, afinal, atuou algumas vezes como lateral-esquerdo, isto porque o titular Ronan vivia machucado. Desde a época, de acordo com Teixeira, era referência aos mais jovens: "Era o que queríamos em um meia", lembra. Mas o que ele tinha de tão bom? Bola parada forte e proatividade nas finalizações. Destacava-se ainda pela liderança ao reunir outros jogadores em roda de violão para tocar músicas religiosas.

Patinho feio na base tricolor?

Xerém é um celeiro de promessas que orgulha qualquer tricolor. Até a venda de Gerson, em 2015, o clube havia negociado 19 atletas, com arrecadação de R$ 235 milhões. Scarpa nunca protagonizou o assédio de outros clubes, é verdade. Mesmo mais velho, não era considerado um fenômeno como Robert e Gérson (Roma). Nem era badalado como Kennedy (Chelsea) e o agora companheiro Wellington Silva (que foi vendido muito jovem ao Arsenal e já voltou ao Flu). Estava atrás ainda de nomes como Biro-Biro, Marlon (Barcelona) e até Marcos Júnior, um ano mais novo. Seja por atuações, gols ou divulgação na mídia.

- De fato, nunca houve badalação em cima do Scarpa até pelo perfil dele. É um cara “low profile”, religioso. Era uma liderança interessante em Xerém e sempre foi muito querido por todos. Mas realmente não era um super destaque na base - lembra Marcelo Teixeira.

De 2012 até 2014, quando começou a treinar no profissional, disputou 61 jogos e marcou 20 gols na base tricolor (veja no vídeo acima os dois na Copinha, um contra o Atlético-AC e outro diante da Ferroviária). Foi campeão carioca sub-20 (2013), da Copa Ítalo-Brasileira Sub-20 (2013) e da Taça Guanabara sub-20 (2014).

Começo no profissional

Scarpa treinou no profissional pela primeira vez em 2013, um ano turbulento ao Tricolor, ainda na gestão de Vanderlei Luxemburgo, que lutava contra o rebaixamento no Brasileirão – aquelas atividades em que reservas enfrentam os juniores. Entre base e o time de cima, foi ganhando experiência. O clube começava a pensar em plano de carreira a um jovem que poucos conheciam. O último jogo pela base foi em 6 de julho de 2014, período de Cristóvão Borges como treinador. Ele não quis aproveitar muito a promessa, tinha Wagner, Conca e Rafael Sobis como opções no setor. Deu a primeira chance no empate em 1 a 1 com o Inter pelo Brasileirão, ao colocá-lo no segundo tempo. Ficou mais quatro vezes no banco e voltou a atuar no 5 a 2 sobre o Corinthians. A solução foi emprestá-lo. O RB Brasil, de São Paulo, o contratou após a indicação de Marcelo Teixeira a Thiago Scuro, então gerente do clube.

Os golaços no RB Brasil

Na disputa do Paulistão 2015, se transformou em uma opção no elenco do técnico Maurício Barbieri. Fez 11 jogos, a maioria entrando no decorrer da partida, e mostrou que a rotina de golaços não é novidade com dois belos gols (veja no vídeo abaixo, os feitos diante de São Bento e Bragantino, além de boa jogada frente ao Palmeiras). Deixou a equipe em 11 de abril. O bom desempenho lá o fez retornar ao Flu com expectativa. O momento nas Laranjeiras era ruim. Cristóvão havia sido demitido. O clube apostara em Ricardo Drubscky, que comandou o time em apenas oito jogos. Havia a possibilidade de um novo empréstimo, o que desagradava o atleta - assim como a ida para o RB Brasil. A história só iria mudar com Enderson Moreira. Logo no primeiro jogo do treinador, o empate sem gols com o Corinthians, Scarpa ficou no banco.

O dia que Enderson o manteve nas Laranjeiras e o brilho na hora certa

Por quase um mês, até ser relacionado pela primeira vez com Enderson, Scarpa treinou nas Laranjeiras sem saber do futuro. Teve propostas de empréstimo de Náutico e Vitória. Mas uma conversa com o treinador o manteve no clube:

- Perguntei para ele sobre o meu aproveitamento. Ele disse que tinha uma lista de dispensa e que eu não estava. Disse que gostava do meu futebol, mas que não podia me prometer nada. Aí, combinei com o meu pai de esperar até a 10ª rodada do Campeonato Brasileiro para ver como seria. E logo na 10ª eu dei a assistência para o Lucas Gomes - lembrou o meia.

Enderson se recorda do papo. Só não sabia do prazo determinado pelo atleta e seu pai.

- Como havia a chance de sair de novo, fui observando. Nos treinos, percebi que estava empenhado. Chamei para uma conversa, disse que não poderia prometer nada, mas falei que queria contar com ele. Deu certo. Scarpa tem ótima qualidade técnica, é competitivo. Sempre que propõe um treino, cumpre com intensidade. Eu até tinha trabalho. Falava: "menos um pouquinho, não fica batendo na bola após o treino". Ele tem prazer no que faz. Não faz por obrigação, faz com paixão - recorda o treinador.

O passe que o fez deslanchar no profissional

Enderson viveu bom momento no Flu. Chegou à vice-liderança do Brasileirão. Apostou em Scarpa - além de Marcos Junior e Gerson - após as lesões de Wagner e Vinícius. O momento do clube após a saída da Unimed também favorecia o aproveitamento da base. O trio de jovens abastecia Fred. Mas até isso acontecer, Scarpa tinha poucas oportunidades.

Parece até roteiro de filme: na 10ª rodada, contra o Santos, no Maracanã, o então camisa 40 entrou. Deu assistência a Lucas Gomes, que marcaria de cabeça o gol da vitória por 2 a 1 (relembre no vídeo acima). A partir daquele jogo, Scarpa deslanchou. Na partida seguinte, marcou pela primeira vez e garantiu a vitória por 1 a 0 sobre o Cruzeiro. Virou titular. E não precisou se preocupar mais.
E a Seleção?

Scarpa não foi chamado para as seleções de base. Outros nomes da geração dele, tiveram mais oportunidades. Exemplos: Guilherme Costa (Vasco), Adryan (Flamengo) e Dodô (Atlético-PR, hoje na Chapecoense) no sub-15; Guilherme Costa, (Vasco), Adryan (Flamengo), Hernani (Atlético-PR), Andrigo (Inter) e Wellington (Vitória) no sub-17 e Felipe Anderson (Santos), Matheus (Flamengo) e Leandro (Grêmio) no sub-20. O entendimento é que a concorrência era grande, sem falar que Scarpa teve uma maturação física tardia. A não classificação da Seleção ao Mundial Sub-20 de 2013 também diminuiu as chances.

Já titular do Flu, foi lembrado por Rogério Micale na preparação à Rio 2016. Participou de dois amistosos, fez parte da pré-lista de convocados, mas acabou fora da Olimpíada. Recentemente, foi chamado pela primeira vez para a Seleção principal por Tite, no amistoso contra a Colômbia, em favor das vítimas do acidente com a Chapecoense. Ficou em campo por 22 minutos e teve duas chances de gol (recorde no vídeo abaixo). Ficou o gosto de quero mais.

Por que ainda não foi vendido?

Na base, outras promessas mais badaladas chamavam a atenção de empresários e outros clubes. No profissional, o Flu sempre tentou - e até agora conseguiu - manter Scarpa. No fim da gestão Peter Siemsen, o valor estipulado pela diretoria para começar a conversar era uma proposta de pelo menos 10 milhões de euros (quase R$ 33 milhões). O Tricolor tem 45% dos direitos econômicos, de acordo com o balanço financeiro de 2015. Muitas sondagens chegaram ao clube, mas oferta oficial, no papel, apenas do Palmeiras questão de pouco tempo atrás.

Foi recusada por dois motivos principais: não chegou nem perto do valor pretendido e também para não reforçar um rival nacional. O contrato atual vai até 2019. Chegou a iniciar uma renovação. Estava tudo certo para a prorrogação até 2021, mas não foi assinada. As negociações seguem. E aí, Scarpa, chega ao fim do ano no Flu?

- É difícil responder. Eu não sei nem o que vai ser amanhã da minha vida. O reconhecimento e as especulações são sinais de que o trabalho é bem feito. O contrato não foi renovado, fico chateado. A valorização será boa para mim e para o clube. Eles fizeram uma oferta, eu fiz uma contraproposta. Mas ninguém pode falar que isso está me atrapalhando pois faz três meses e continuo atuando bem - disse o jogador.

Fonte: GloboEsporte
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