Papo Firme - Por André Rocha
André Rocha é carioca e estudante de Jornalismo. É dono do blog Futebol & Arte, colaborador assíduo do Blog de Mauro Beting, assina as colunas "Olho Tático" no site "Papo de Bola", e "Futebol Brasileiro" no site português "Jogo de Área". Também comentou algumas partidas pela TV Esporte Interativo em 2007.
Publicada em 08/03/2010
Leovegildo Júnior, excepcional lateral-esquerdo e depois meiocampista, hoje comentarista na TV, foi preciso na análise sobre o legado da derrota da seleção brasileira na qual atuou em 1982: “A seleção que venceu virou referência. Se tivéssemos vencido, seríamos o espelho. Mas, para os treinadores, até que não foi ruim: era muito mais fácil copiar a seleção italiana”.

Por incrível que possa parecer, não é tão simples escolher o caminho da competitividade aliada à beleza e ao espírito ofensivo. É preciso material humano de qualidade e muita coragem para assumir os riscos. Por mais simples que pareça o futebol praticado por quem sabe fazer, sempre vai ter alguém obcecado por equilíbrio para criticar. Ou se aproveitar.

Essa foi a opção do Santos 2010 de Dorival Jr. O time leve e ofensivo de Neymar, Ganso, André, Robinho, Marquinhos, Arouca, Wesley e Cia. parte para cima e acredita que, com velocidade, dribles e toque envolvente é possível fazer mais gols que o oponente, mesmo com a retaguarda menos protegida.

O problema é quando o dia não é de espetáculo e do outro lado há uma equipe competente e disposta a negar os espaços e explorar as falhas da defesa que não tem o hábito de ser tão fustigada exatamente por manter a bola no campo adversário.

No jogaço do Canindé que encerrou com a sequência de vitórias do alvinegro praiano no Paulistão, a Portuguesa de Vágner Benazzi soube se fechar num 3-4-1-2 bem executado e não abdicou do ataque, explorando a principal deficiência do Santos quando não tem a bola: a pouca ou nenhuma combatividade do quarteto ofensivo, que deixa laterais e volantes a mercê das tabelas e triangulações pelo centro ou pelos flancos que estouram nos zagueiros de área.

O confuso lado direito com Roberto Brum e Wesley se revezando como lateral e volante foi facilmente envolvido pelas combinações de Fabrício e do veterano Athirson, que passeou pelo setor como ala. Assim saiu o gol de Héverton na primeira etapa. E outras tantas oportunidades foram criadas em jogadas por ali.

É dispensável dizer que o Santos também criou. Está no DNA do time que mais encanta atualmente. E Dorival foi ainda mais ousado na segunda etapa ao trocar Brum por Marquinhos, fixar Wesley de vez na lateral e escancarar um 4-3-3 no melhor estilo Barcelona, com dois meias criativos e três atacantes, para sufocar e dar trabalho ao goleiro Fabio, o melhor em campo.

A questão é que a Lusa teve a bola do jogo em seguidos contragolpes, mas faltou competência em alguns lances. E sorte na jogada decisiva: aos 44 minutos, o atacante Luiz Eduardo arrancou no mano a mano com a zaga, sentiu uma fisgada na coxa e caiu. Enquanto alguns de seus companheiros pediam ingenuamente a paralisação da partida, o Santos atacou com Wesley pela direita em cima do já extenuado Athirson e, depois da confusão na área, Zé Eduardo, o substituto de André, achou o gol salvador.

Dessa vez o prêmio pela coragem não foram os três pontos. Mas é inegável o mérito pela persistência e, obviamente, o talento de uma equipe de exceção no país. Porém, trabalhar virtudes e defeitos é necessidade básica em qualquer atividade e o time de Dorival Jr. pode ser mais forte se encontrar uma forma de continuar com o estilo abusado sem sofrer tanto atrás.

Em um confronto eliminatório, todo o encanto pode virar história sem taça, como o Brasil de Júnior e tantos outros craques em 1982. Mesmo com a justa compensação de se fixar na memória dos que apreciam o futebol lúdico e bem jogado, certamente não é isso que o Santos quer na temporada.
Publicada em 03/03/2010
A vitória por 2 a 0 sobre a Irlanda no Emirates Stadium no último amistoso da seleção brasileira antes da convocação final para a Copa da África do Sul teve peso praticamente zero e quase nenhuma utilidade para a definição dos 23 nomes.

O time novamente foi lento e sem ideias com o jogo parelho no primeiro tempo e achou seu gol num deslocamento de Robinho do centro para a direita, em impedimento, e o chute que bateu em Andrews e saiu do alcance do ótimo goleiro Given, do Manchester City. Com a vantagem e as entradas de Daniel Alves e Grafite nas vagas dos pouco inspirados Ramires e Adriano, a equipe brasileira cresceu na segunda etapa e consolidou o triunfo com o belo gol de Robinho, que mostrou que é, sim, jogador de seleção e, com o ritmo de jogo e a motivação readquiridos no Santos, pode ser um fator de desequilíbrio a favor do time de Dunga.

4-2-3-1 “torto”, com o meia pela direita mais recuado que Robinho pela esquerda, defesa relativamente sólida – com a dúvida na lateral-esquerda que persiste, também pela atuação hesitante de Michel Bastos -, time pragmático que vive de jogadas aéreas, lampejos dos mais talentosos e de contragolpes: esse é o Brasil que termina o ciclo pré-Mundial como um dos principais favoritos. Os resultados são inquestionáveis: 37 vitórias, 11 empates e apenas 5 derrotas. O aproveitamento impressiona: 76,7%. Só o futebol é que não justifica tanto otimismo.

Na coletiva em Londres, o treinador reafirmou suas convicções e deixou claro seus critérios: vai à Copa quem correspondeu às expectativas em termos técnicos e táticos e mostrou interesse, bom comportamento e compromisso com a camisa verde e amarela.

Até a convocação de Grafite tem uma boa justificativa: o técnico não tem um terceiro nome confiável para o comando do ataque além de Luis Fabiano e Adriano. Love e Afonso estão descartados há tempos, Diego Tardelli e Alexandre Pato seriam opções para a reserva de Robinho se Nilmar não tivesse garantido o passaporte. Apesar de não viver o momento iluminado do final da temporada europeia 2008/09, o atacante do Wolfsburg foi muito bem e se transformou numa alternativa interessante.

Ao contrário do que muitos de seus críticos afirmam, o equívoco de Dunga não é a incoerência. Não há no grupo praticamente fechado para a Copa um jogador que, na média, não tenha ido bem, ou melhor que seus concorrentes dentro da seleção. Os escolhidos também respeitaram a “cartilha” da CBF e muitos até peitaram seus clubes para servir à seleção. A confiança em jogadores que não vivem boa fase é até compreensível. Se a camisa pentacampeã mundial não pesou em outros jogos importantes, é legítima a aposta em quem se confia.

O que se deve questionar, e muito, são os critérios para a avaliação. Tomemos o exemplo mais óbvio, que salta aos olhos numa primeira análise: Ronaldinho decepcionou no Mundial de 2006 e, no ano seguinte, pediu dispensa da Copa América para desfrutar das férias a que tinha direito. Ganhou uma “geladeira”, voltou e novamente não teve atuações condizentes com seu enorme talento. Não rendeu na seleção porque vinha mal no Barcelona. Retornou nas Olimpíadas por “sugestão” de Ricardo Teixeira e mais uma vez não foi bem. Também porque não rendia no clube.

O craque redivivo do Milan está praticamente descartado. Só um fato novo, como uma contusão grave de Kaká e Robinho, poderia demover Dunga da ideia de não chamá-lo. A teoria de que o técnico vai aguardar até o último momento para garantir a ida de um Ronaldinho em forma e motivado não se sustenta pelas suas declarações e a postura ainda mais defensiva que o habitual nas respostas sobre o tema.

E aí vem a pergunta que transborda do cérebro até a língua ou aos dedos: onde está a justiça de se descartar um craque que faz falta à equipe e ao elenco pela capacidade de improviso, no seu melhor momento em quatro anos, por causa de fracas atuações de tempos atrás, quando o jogador se arrastava em qualquer campo, com qualquer camisa?

Ainda que Ronaldinho não fosse recebido com tapete vermelho e cadeira cativa entre os titulares, como aconteceu com Romário em 1993 e Scolari negou o privilégio ao mesmo Baixinho em 2002, por que não um teste de 30 minutos ou até menos tempo no último amistoso?

No caso de Pato, o erro é não considerar o natural amadurecimento de um jovem que vai construindo sua trajetória na Europa. O baixo rendimento e o revés em Pequim ganharam um peso desproporcional na avaliação. Negar mais uma oportunidade ao avante rossonero também soa injusto. Até cruel.

Dunga peca na brutal condenação de quem não tinha como mostrar mais quando recebeu a oportunidade e agora parece mais pronto que os demais. O perigo é que a bola puna a “miopia” do comandante no momento mais importante.

Publicada em 22/02/2010
Até os dirigentes da FERJ, que com "propriedade" marcaram jogos da Taça Rio às 8 da manhã, sabiam que o Botafogo de Joel Santana novamente apostaria tudo na marcação obsessiva e nas bolas altas para superar o Vasco na disputa derradeira pela Taça Guanabara.

Dessa vez o cerco não foi individual. Fahel, Fabio Ferreira e Wellington, que substituiu o contundido Antonio Carlos, se alternaram na marcação a Dodô e Philippe Coutinho, definido como atacante no 4-3-1-2 de Vagner Mancini na primeira etapa; Leandro Guerreiro e Eduardo marcavam Carlos Alberto por setor e os alas esperavam os laterais vascaínos.

Jogo igual nos primeiros 45 minutos, com o Botafogo tentando colocar um pouco a bola no chão e articular com Lúcio Flávio, mas este era bem marcado por um dos três volantes vascaínos. Na bola alta, apenas uma chance, com Abreu ajeitando para Alessandro chutar e a bola desviar em Herrera, assustando Prass. O uruguaio teve as duas melhores oportunidades, mas a falta de habilidade e um suposto pênalti de Fernando, em lance mais que duvidoso e difícil para a arbitragem de Marcelo de Lima Henrique, impediram a vantagem do Glorioso antes do intervalo.

O Vasco se atrapalhou com a vigorosa marcação do adversário e forçou demais as jogadas pela direita, praticamente abandonando Marcio Careca do lado oposto. Carlos Alberto e Coutinho conseguiram se impor na habilidade, mas as conclusões não foram das mais felizes. Na retaguarda, Titi se saiu melhor que Fernando nas disputas pelo alto com Abreu. Não por acaso, Joel gritava para que o intrépido Herrera abrisse pela direita, para que os cruzamentos buscassem o “poste” alvinegro contra seu pior marcador.

Na segunda etapa, Mancini trocou Léo Gago por Magno e plantou Nilton como terceiro zagueiro para liberar os laterais como alas. A mudança mexeu com a marcação do oponente, mas, na prática, acabou isolando um Dodô já escondido entre os zagueiros. Só melhorou para Carlos Alberto, que, mesmo sacrificado com dores no pé direito, passou a encontrar mais espaços para fugir dos volantes e bater no gol. Na melhor conclusão do meia-atacante, bela intervenção de Jefferson. Mas a oportunidade mais cristalina caiu nos pés de Herrera, que bateu no alto e Fernando Prass fez defesa magistral.

Joel fez a troca rotineira: Lúcio Flávio por Caio. Mancini respondeu tirando o lento e já cansado Souza e colocando Rafael Carioca para marcar a ágil revelação botafoguense. A partir daí, o desenho da partida ficou claro: o Vasco precisava de um lampejo de seus talentos; o Bota da jogada de sempre, que ainda não fora executada com perfeição.

Aos 25, o escanteio cobrado pela esquerda por Marcelo Cordeiro achou Fabio Ferreira, que subiu mais que Fernando e cabeceou meio sem jeito, mas o suficiente para tirar do alcance de Prass, que ficou no meio do caminho e apenas acompanhou com os olhos. O gol ganhou ainda mais importância por destemperar o adversário. Nilton entrou para quebrar Caio e levou o vermelho direto com justiça.

O Vasco ainda tentou na fibra, com Pimpão no lugar do apagado Magno, mas a confiança do Bota sufocava qualquer esboço de reação. E ainda tinha a estrela de Abreu, que era peça nula no jogo de contragolpes alvinegro, mas cavou e converteu o tolo pênalti de Titi que rendeu a expulsão por segundo amarelo do zagueiro cruzmaltino aos 38 minutos. Foi o sexto gol do artilheiro e o principal protagonista, dentro de campo, da surpreendente conquista alvinegra.

O titulo do turno premia o time mais determinado e garante a presença do Bota na quinta decisão consecutiva no Estadual. Um recorde do clube e na história - o Vasco foi vice em 1978, 79, 79 (especial), 80 e 81 e campeão em 77 e 82, porém em 77, 78 e no especial de 79 não houve decisões, com o vencedor conquistando diretamente. Joel Santana repete 1997 e vence a Taça GB com o Botafogo alcançando 100% de aproveitamento. Impressionante a ressurreição da equipe na competição depois dos humilhantes 6 a 0 aplicados pelo próprio Vasco, que custaram a cabeça de Estevam Soares.

A piada pronta no Rio de Janeiro é: “Botafogo já está na final. Agora falta o campeão.” Só que é dever lembrar que, se nos outros anos em que o alvinegro sucumbiu diante do Flamengo os treinadores eram Cuca e Ney Franco, profissionais jovens e com poucos títulos no currículo, dessa vez o comandante tem história e pode, em duas partidas decisivas jogando no limite e contando com seu carisma e a estrela que nunca o abandona, ficar com a taça pela sétima vez na carreira.
Publicada em 18/02/2010
Não, esta coluna não é sobre religião, auto ajuda ou temas correlatos, como indica o título um tanto piegas. É apenas uma constatação do jogo que imita a vida.

O roteiro da espetacular virada do iluminado Botafogo de Joel Santana por 2 a 1 sobre o infeliz Império do Amor rubro-negro na semifinal da Taça Guanabara já é mais que conhecido por quem acompanha o esporte bretão há algum tempo:

Em um clássico que já equilibra as forças pela tradição, a equipe inferior tecnicamente faz a partida da vida, com fibra, alma, sacrifício e concentração, tanto na marcação, porque qualquer falha pode ser fatal, quanto no ataque, já que as chances criadas têm que ser aproveitadas. Já o favorito, embora disposto, joga mais naturalmente, sem tanta gana e esperando a hora de resolver a partida com um brilho individual ou uma jogada bem trabalhada.

O que costuma definir essa disputa é uma espécie de bálsamo que premia aquele que, embora menos virtuoso, valoriza mais o jogo, trabalha seus defeitos e virtudes e se entrega por inteiro.

Assim foi com o alvinegro, que teve “sangue nos olhos”, estratégias bem definidas para marcar e atacar e fé no que parecia impossível pela desvantagem técnica e de moral pelas derrotas recentes. E que ficou pior depois do gol de Vinícius Pacheco em bela combinação com Vágner Love, que fez o trabalho de pivô sobre Antonio Carlos com perfeição e serviu o meia, que teve boa atuação até dar o lugar para Petkovic no segundo tempo.

Como já era esperado, Joel apostou tudo na marcação individual bem distribuída com Antonio Carlos na sobra e nas bolas altas para Abreu concluir ou preparar para quem viesse de trás. Um jogo praticamente sem trabalho no meio-campo. A missão era roubar a bola, abrir para um dos lados do campo e cruzar procurando o centroavante uruguaio. Deu certo: além dos gols de Marcelo Cordeiro e da “arma secreta” Caio, um em cada tempo, o Bota ainda teve mais quatro chances com a mesma jogada que a zaga do Fla não conseguiu conter por suas limitações técnicas e na estatura.

Do outro lado, o que se preocupou menos e encarou a partida como uma decisão, mas não tão importante assim, novamente foi envolvido numa “aura maldita” que tudo atrapalha e o empurra para o precipício.

O time de Andrade deu chance para a falta de sorte com a retaguarda insegura e um meio-campo que ainda não definiu seu desenho tático. Willians e Toró roubaram muitas bolas, mas não sabiam se deviam sair ou cobrir as descidas de Léo Moura e Juan. Kléberson é outro que ainda não entendeu se é mais um volante ou o meia que auxilia Pacheco ou Pet na criação. Menos mal que o adversário abusava da ligação direta e deu pouco trabalho no setor. Na frente, o jogo muito centralizado na dupla de ataque simplificou a marcação. Ainda assim, muitas chances foram criadas e, nas melhores, Adriano e Love desperdiçaram não por displicência ou desatenção. Simplesmente não era o dia. Ou estava escrito.

O Bota teve ventura até no lance em que Fahel seria expulso e poderia mudar todo o curso da partida. A confusão do árbitro Luis Antonio Silva dos Santos, o Índio, e o inexplicável cartão para Fabio Ferreira, que nem participou do lance, deu chance a Joel de tirar o volante-zagueiro e, além de continuar com onze em campo, rearrumar sua defesa com Wellington pela esquerda.

A lição pode ser importante para o Fla mais à frente, já que na Libertadores o atual campeão brasileiro certamente enfrentará equipes que abusam do jogo aéreo, lutam durante os noventa minutos e são catimbeiras – como os jogadores alvinegros e Joel reclamaram e tentaram atrapalhar a arbitragem! O bom senso indica que o torneio continental deve ser priorizado a partir de agora e a Taça Rio pode ser um laboratório interessante para Andrade acertar o time.

Na decisão do primeiro turno, os comandados de Joel, com moral elevada, têm a oportunidade de exorcizar o fantasma dos 6 a 0 da fase de grupos, ainda sob o comando de Estevam Soares. Mesmo diante de um Vasco que certamente entrará com mais atenção e respeito, o Bota pode aprontar outra “surpresa” com o suor, a vibração e a noção de seus próprios limites que fizeram brilhar a estrela solitária e derrubaram mais um favorito absoluto na história do esporte mais apaixonante do planeta.
Publicada em 05/02/2010
Os feitos de Neymar neste início de temporada são dignos de todos os louros e elogios. Seu golaço na vitória do alvinegro praiano por 2 a 1 sobre o Santo André, driblando os marcadores com enorme facilidade e concluindo com frieza e categoria, é uma verdadeira ode ao futebol, uma jogada para ser revista e guardada nas retinas.

O (ainda) camisa 7 do Santos é rápido, com técnica acima da média e verticalidade impressionante. Além disso, parece muito calmo e maduro para os 18 anos que completa hoje. Neymar mostra a cada jogo que, de fato, é uma joia rara e que merece o investimento e todo carinho com que é tratado na Vila Belmiro.

No entanto, o retorno de Robinho traz na carona uma “armadilha” perigosa para o garoto: as comparações precoces. Emerson Leão o acha superior ao craque repatriado na mesma idade e outros veículos também fazem o exercício de já equipará-lo ao “rei das pedaladas” e também a Diego. A informação é relevante para analisarmos os números do menino entre os profissionais. Mas é fundamental também relativizá-los para não queimar etapas e descarregar em seus ombros uma responsabilidade que ainda não é dele.

Robinho e Diego surgiram num período de total ostracismo do Santos no cenário nacional e reescreveram a história do clube com um título brasileiro conquistado sobre o Corinthians de Parreira, o melhor time de 2002 no país. Diego, então com 17 anos, arrebentou na vitória por 2 a 0 na primeira partida e Robinho foi protagonista nos históricos 3 a 2, compensando a ausência do amigo contundido com gol, passes e a fantástica sequência de pedaladas sobre Rogério.

Neymar ainda não tem taças para exibir na trajetória ainda em construção. Os vinte gols em 54 jogos (dados do amigo e colega DASSLER MARQUES no Terra) e a artilharia do Paulistão com seis gols no mesmo número de partidas, de fato, impressionam. Suas atuações decisivas no Estadual do ano passado, especialmente nas semifinais contra o Palmeiras, são outras ótimas referências para o jovem. Porém, o bom senso ordena que consideremos a fragilidade dos torneios regionais e deixemos a memória seletiva de lado recordando o fracasso individual e coletivo no Mundial Sub-17. A lembrança do futebol acanhado e a decepcionante eliminação da promissora seleção brasileira ainda na primeira fase é importante para segurar a empolgação. Dele e de seus fãs mais ardorosos (e afoitos).

A história do esporte apresenta centenas de exemplos de jovens talentos que se perderam pelo deslumbramento e pelos elogios fáceis e precipitados. O mais marcante e efêmero para este que escreve é o de Édson, revelado no Botafogo e alçado aos profissionais em 1984. Logo em suas primeiras participações, chamava a atenção pela canhota habilidosíssima, o chute potente e a notável destreza nos lançamentos. Em um clube que já amargava 18 anos sem título e numa época de entressafra no futebol carioca após a saída de Zico para a Udinese, Edson foi rapidamente intitulado de “o novo Gérson” e rotulado como craque. Tudo isso aos 19 anos. Para tristeza dos alvinegros e dos apaixonados pelo futebol bem jogado, não agüentou a barra e sumiu tão rápido quanto surgiu.

Esse é o único perigo que circunda uma das maiores promessas do país. Neymar parece ter a cabeça bem trabalhada para lidar com assédio, comparações e “oba-oba”. Além disso, a presença de Robinho certamente dividirá as responsabilidades e os holofotes no time comandado por Dorival Jr.

Seu potencial é imenso, difícil até de mensurar, e sua ida para o futebol europeu praticamente inevitável. Dinheiro, fama e tentações mil ainda cruzarão o seu caminho. São muitas as variáveis que definem a carreira de qualquer profissional. Mais ainda as de um jogador bem pago e incensado numa idade em que deveria estar definindo o que fazer da vida.

Que Neymar comemore seu aniversário vislumbrando no futuro sua condição de craque, destaque em seus clubes e na seleção brasileira e um atleta capaz de se colocar entre os grandes de sua geração no planeta bola. É um sonho mais que possível.

Mas que também carregue a consciência de que ainda dá os primeiros passos numa estrada sinuosa e traiçoeira que exige cuidado, trabalho e cautela para não se perder pelo caminho.

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