Os feitos de Neymar neste início de temporada são dignos de todos os louros e elogios. Seu golaço na vitória do alvinegro praiano por 2 a 1 sobre o Santo André, driblando os marcadores com enorme facilidade e concluindo com frieza e categoria, é uma verdadeira ode ao futebol, uma jogada para ser revista e guardada nas retinas.
O (ainda) camisa 7 do Santos é rápido, com técnica acima da média e verticalidade impressionante. Além disso, parece muito calmo e maduro para os 18 anos que completa hoje. Neymar mostra a cada jogo que, de fato, é uma joia rara e que merece o investimento e todo carinho com que é tratado na Vila Belmiro.
No entanto, o retorno de Robinho traz na carona uma “armadilha” perigosa para o garoto: as comparações precoces. Emerson Leão o acha superior ao craque repatriado na mesma idade e outros veículos também fazem o exercício de já equipará-lo ao “rei das pedaladas” e também a Diego. A informação é relevante para analisarmos os números do menino entre os profissionais. Mas é fundamental também relativizá-los para não queimar etapas e descarregar em seus ombros uma responsabilidade que ainda não é dele.
Robinho e Diego surgiram num período de total ostracismo do Santos no cenário nacional e reescreveram a história do clube com um título brasileiro conquistado sobre o Corinthians de Parreira, o melhor time de 2002 no país. Diego, então com 17 anos, arrebentou na vitória por 2 a 0 na primeira partida e Robinho foi protagonista nos históricos 3 a 2, compensando a ausência do amigo contundido com gol, passes e a fantástica sequência de pedaladas sobre Rogério.
Neymar ainda não tem taças para exibir na trajetória ainda em construção. Os vinte gols em 54 jogos (dados do amigo e colega
DASSLER MARQUES no Terra) e a artilharia do Paulistão com seis gols no mesmo número de partidas, de fato, impressionam. Suas atuações decisivas no Estadual do ano passado, especialmente nas semifinais contra o Palmeiras, são outras ótimas referências para o jovem. Porém, o bom senso ordena que consideremos a fragilidade dos torneios regionais e deixemos a memória seletiva de lado recordando o fracasso individual e coletivo no Mundial Sub-17. A lembrança do futebol acanhado e a decepcionante eliminação da promissora seleção brasileira ainda na primeira fase é importante para segurar a empolgação. Dele e de seus fãs mais ardorosos (e afoitos).
A história do esporte apresenta centenas de exemplos de jovens talentos que se perderam pelo deslumbramento e pelos elogios fáceis e precipitados. O mais marcante e efêmero para este que escreve é o de Édson, revelado no Botafogo e alçado aos profissionais em 1984. Logo em suas primeiras participações, chamava a atenção pela canhota habilidosíssima, o chute potente e a notável destreza nos lançamentos. Em um clube que já amargava 18 anos sem título e numa época de entressafra no futebol carioca após a saída de Zico para a Udinese, Edson foi rapidamente intitulado de “o novo Gérson” e rotulado como craque. Tudo isso aos 19 anos. Para tristeza dos alvinegros e dos apaixonados pelo futebol bem jogado, não agüentou a barra e sumiu tão rápido quanto surgiu.
Esse é o único perigo que circunda uma das maiores promessas do país. Neymar parece ter a cabeça bem trabalhada para lidar com assédio, comparações e “oba-oba”. Além disso, a presença de Robinho certamente dividirá as responsabilidades e os holofotes no time comandado por Dorival Jr.
Seu potencial é imenso, difícil até de mensurar, e sua ida para o futebol europeu praticamente inevitável. Dinheiro, fama e tentações mil ainda cruzarão o seu caminho. São muitas as variáveis que definem a carreira de qualquer profissional. Mais ainda as de um jogador bem pago e incensado numa idade em que deveria estar definindo o que fazer da vida.
Que Neymar comemore seu aniversário vislumbrando no futuro sua condição de craque, destaque em seus clubes e na seleção brasileira e um atleta capaz de se colocar entre os grandes de sua geração no planeta bola. É um sonho mais que possível.
Mas que também carregue a consciência de que ainda dá os primeiros passos numa estrada sinuosa e traiçoeira que exige cuidado, trabalho e cautela para não se perder pelo caminho.