Direto do Terrão - Por Diego Viñas
É jornalista de contos e histórias. Um repórter que cobre, ao mesmo tempo, o acadêmico futebol internacional e o romântico futebol de várzea. Vive com tênis sujo do terrão, mas nunca perde uma final de Champions League.
Publicada em 09/07/2009
Para quem me acompanha no twitter (@diegovinas) leu na última semana minhas manifestações sobre a cobertura da TV Gazeta sobre uma competição de futebol amador muito importante aqui de São Paulo. Trata-se da 2ª edição da Copa da Paz, que terminou no último fim de semana de junho. Antes de mais nada, não foi a cobertura do campeonato, mas apenas da final. Isso para começar!
Além da gente, a equipe do Contos da Várzea (contosdavarzea.blogspot.com), a reportagem da Gazeta também marcou presença. O que é bem legal na minha opinião. Só que fiquei um pouco chateado com a maneira que eles cobriram depois.
O pessoal vai só na final, não fazem a matéria no domingo depois do dia da final, soltam só na outra semana com o seguinte destaque na tela: O futebol de várzea está de volta!. De volta? Como assim, de volta? Para mim, que acompanho cada poeira do terrão, foi muito trsite saber que parte de nossos parceiros de profissão ainda tratam o futebol amador como novidade. A várzea sempre esteve aí, nunca foi embora para "estar de volta".
Pior que isso, foi o ilustre governador José Serra me responder pelo twitter sobre o assunto. Vou reproduzir na íntegra o que ele (ou o assessor, sei lá) escreveu.
"O futebol não acaba, as várzeas sim - com o avanço desordenado da urbanização. O Cambuci na minha infância era cheio de campos"
A seguir, minha resposta.
"Sim. No entanto, para os varzeanos, a termo "Futebol de várzea" continua vivo. Como jornalista, continuo na luta pela divulgação da genuína prática do futebol de várzea"
Como não bastasse tudo isso, nesta quarta-feira a TV Gazeta fez um reprise da matéria da final da 2ª Copa da Paz e, ao entrevistar os jogadores do Vida Loka, campeões do torneio, o repórter usou muito a palavra "favela" e usava muito o discurso de futebol de várzea como união de comunidades carentes.
Mesmo sendo em Paraisópolis, não consigo tratar ali com esse tom de dó. Acredito na várzea como um ambiente de socialização, de união de diversas classes sociais. Sei que estou sendo rabugento, mas não gosto de demagogia demais. Não acredito que os varzeanos precisem deste tipo de discurso. E a história dos times? Dos torneios? Temo que daqui um ou dois meses a emissora nem sequer vá lembrar do Vida Loka ou desse campeonato. Por isso espero, e muito, estar errado.
Contato: diegovinas@gmail.com
Publicada em 28/06/2009
Acordei cedo para mais um dia de filmagem nos terrões. A primeira parada foi na pracinha do bairro onde todo o time e torcedores se encontram antes de seguirem em romaria para o campo.
O clima no Consideração Futebol & Samba era um tanto de "desesperança". Alguns se animavam com os gols de Espanha e África do Sul, na disputa de 3º lugar da Copa das Confederações que passava na TV do barzinho de esquina. No fundo, a certeza de que a classificação seria muito difícil naquele início de tarde fria.
Em campo, a torcida bem que tentou ajudar o time de amarelo. Mas do outro lado estavam os atuais campeões daquela que é uma das mais importantes competições da cidade. Eram os azuis do Nós Travamos. Ah é... ambos são da zona sul da capital paulista.
O primeiro tempo de 35 minutos (porque é assim em jogos de várzea) foi o suficiente para o Nós Travamos cravar a eliminação do "Considera" , como gritava a torcida que emocionou. Os 3 a 0 fulminantes da primeira etapa foi também o resultado final da partida.
Diferente aconteceu com a amarelinha brasileira na África do Sul, você viu, né? Primeiro tempo bem parecido. Também saiu perdendo feio. Dessa vez, a rapaziada de amarelinha do terrão chorou, e teve que se contentar com a amarelinha nacional no fim da tarde. Nada como uma boa dose de ânimo pra continuar na luta.
Publicada em 19/06/2009
Antes de mais nada, é um prazer enorme falar com você, leitor... ou melhor, webleitor nesse mais novo espaço que o pessoal do FutNet abriu pra rapaziada da várzea. Mas, e os varzeanos que me entendam, preciso muito fazer uma analogia sobre uma notícia que acabei de ler: a demissão do Muricy Ramalho do São Paulo.
Imaginem o time do seu bairro. Goleiro mora na rua de cima, a zaga é formada pelo pessoal ali da rua da pracinha. Meio campo e um dos atacantes são vizinhos. Ah é, tem sim um cabeça de área que pegaram do município vizinho que é incrível, mas beleza. E o treinador é o homem de confiança. O que mora há mais tempo na região. Conhece cada dono de bar, lojas de camisas de futebol e tudo mais.
Quando é assim, os jogos decisivos são sempre a mesma coisa. Campo cheio, torcida comparece, comunidade apóia, bateria rola solta e o treinador ali, na beira da lateral com a mesma concentração desde quando estava no busão... na frente, perto do motorista pra explicar o caminho e, claro, pra não entrar na empolgação do resto do time que faz o maior pagode na lataria do ônibus.
Durante a preleção, aquele grito de guerra. Durante o jogo, olhos de técnico profissional e bronca, muita bronca, igual ao Muricy. Uma semifinal no terrão é igual qualquer final no profissional.
Mesmo depois de uma derrota, uma eliminação, o treinador continua lá. Ele faz o papel de pai, de psicólogo, até de psiquiatra se precisar. Talvez ele não durma naquela noite, mas precisa garantir o sono de todos os jogadores e da torcida.
Objetivo: garantir a confiança e o respeito com toda comunidade. Garantir que todos voltem ao campo no próximo campeonato, com a mesma força e empolgação.
Muricy, uma dica. Quer respeito? Quer moral? Procure um time de várzea pra você treinar. Mas cuidado! Não venha com "ranzizice" pra cima do pessoal, hein! Nem pra cima dos repórteres... quer dizer, isso é raro ter na várzea. Normalmente só está eu por lá! Enfim, o recado está dado!